Quando pensamos em tornozeleira eletrônica — o dispositivo que hoje monitora detidos em prisão domiciliar — raramente imaginamos sua origem como saída de uma história em quadrinhos. Mas a verdade é que o equipamento foi diretamente inspirado por uma trama do Homem-Aranha.
A inspiração improvável
Nos anos 70, o juiz Jack Love, do condado de Bernalillo, no Novo México (EUA), assistia a tirinhas do Amazing Spider-Man quando leu uma edição na qual o vilão Rei do Crime colocava um bracelete eletrônico no braço de Peter Parker. Esse bracelete rastreava seus movimentos e impedia que ele escapasse do controle.
Love, enfrentando problemas de superlotação no sistema prisional local, teve um insight: por que não usar algo semelhante para monitorar presos de baixa periculosidade em liberdade condicional?
Da ideia à tecnologia
Motivado pela ficção, o juiz procurou um engenheiro: Michael Goss, do Colorado, topou o desafio. O resultado foi o Goss-Link, apelidado por alguns como “algemas eletrônicas” — um pequeno dispositivo, preso ao tornozelo, que enviava sinais periodicamente por rádio para um receptor em casa.
Para testar a ideia, Love não hesitou: colocou a tornozeleira em si próprio, inclusive durante o banho, para experimentar na prática. Ele disse mais tarde que se sentia “em uma guia muito curta”.
Em 1983, o piloto começou oficialmente: três presos foram monitorados com o Goss-Link. Entre eles, um homem preso por cheques sem, um veterano do Vietnã, e outro condenado por dirigir embriagado.
Embora o programa pioneiro tenha sido interrompido pelo Supremo tribunal do Novo México por questões contratuais (Love teria fechado negócio sem passar por outros juízes), a ideia tinha sido lançada para o mundo.
Do piloto à adoção global
A partir daí, a tecnologia se espalhou. No final dos anos 80, milhares de pessoas já eram monitoradas eletronicamente nos EUA. No Brasil, a monitoração eletrônica começou a ganhar força mais tarde — por volta de 2010, segundo documentos do Departamento Penitenciário Nacional (Depen) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
A tornozeleira hoje e a conexão com Bolsonaro
Recentemente, a tecnologia voltou aos holofotes por causa do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em sua prisão domiciliar, ele usava uma tornozeleira eletrônica — e um laudo pericial indicou que a capa plástica do dispositivo estava danificada, provavelmente por calor concentrado, como solda ou ferro.
Segundo a desembargadora Ivana Davi, qualquer tentativa de violar ou manipular o aparelho dispara alertas em uma central de monitoramento 24 horas por dia. A tornozeleira permite até banho, desde que o equipamento não seja exposto a calor intenso.
Então é isso: da ficção para a vida real, o Homem-Aranha ajudou a criar uma das tecnologias de monitoramento mais usadas hoje!
