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Joana Treptow
Joana Treptow
Destaque pelo estilo espontâneo na apresentação jornalística, Joana Treptow teve passagem pela TV Bandeirantes, onde começou a atuar como repórter de TV e, em seguida, passou a integrar o elenco de âncoras do veículo, além de produzir reportagens especiais.

Se os personagens fossem outros, a história não existiria

A morte de Catarina Karsten expõe a brutalidade da violência contra a mulher no Brasil e a perigosa normalização que transforma histórias de vida em estatísticas

Um homem foi estuprado e depois morto enquanto andava por uma trilha. Ele saiu cedo de casa para ir para uma aula, mas não chegou lá. A mulher que praticou o crime usou um cadarço para estrangulá-lo depois de abusar dele e deixou o corpo numa mata. Dois homens que passavam pela região acharam o comportamento dela estranho, fotografaram e avisaram a polícia. Foi assim que ela foi identificada. A investigação agora tenta descobrir se a mesma criminosa não seria responsável por outro estupro, o de uma senhora, três anos atrás.

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Essa poderia ser a história da Catarina Karsten, assassinada em uma trilha em Florianópolis, se invertêssemos os gêneros.

Pela lógica da teoria do jornalismo, isso é um dos conceitos clássicos de notícia: o improvável, o inusitado, a quebra da lógica. A inversão dos valores. Números sobre violência contra a mulher são, e sempre serão, notícia. Porque são um retrato da barbárie. Mas, ao mesmo tempo, não são novidade.

Dizer que uma em cada três mulheres no mundo já sofreu algum tipo de violência deveria chocar. Mas não choca. Esse é um dado divulgado hoje pela ONU. E talvez não choque porque existe algo ainda mais brutal do que a própria violência: a normalização da violência contra a mulher.

Bater em mulher é cultural. É crime. Mas é um crime praticado por agressores que se veem como vítimas do Estado: “a polícia é que está errada em me punir, em se meter; quem tem direito sobre aquela pessoa sou eu”. É possessividade, é desprezo, é raiva. Simplesmente porque se trata de uma mulher. Essa é, inclusive, a definição de feminicídio: o crime praticado contra uma mulher porque ela é mulher.

Na pesquisa da ONU, chama a atenção a idade em que as mulheres começam a ser vítimas: quando ainda são meninas. Antes mesmo da adolescência. Podemos dizer, então, que além de cultural, a violência contra mulheres é questão de tempo. É prevista. É esperada. Vai acontecer. É tão anunciada que ensinamos meninas, desde cedo, a tentar desviar da violência: “não usa isso”, “não provoca”, “não responde”, “não irrita”. Ajuste de roupa, de corpo, de comportamento, tudo para não despertar sentimentos perigosos nos homens. É como se tentássemos criar um manual de sobrevivência para uma menina existir em um mundo que não só maltrata mulheres, como as mata. E o Brasil consegue subir ao pódio dos países mais perigosos: somos o quinto país com mais feminicídios no mundo.

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A Catarina foi vítima de feminicídio. Perdeu a vida porque é mulher. O crime chocou, mas, sinceramente, não chocou tanto assim. A população se indigna, mas também se acostuma. São tantos casos que o luto vira automático. O que podemos fazer além de lamentar? Reagir a cada feminicídio? Não tem como. A quantidade é tão absurda que impede até o direito de reagir caso a caso. O sentimento começa em tristeza, passa por redobrar a atenção e termina em resignação. E é assim que vidas inteiras, histórias, famílias se tornam “+1” em relatórios da ONU, do poder público, de pesquisas acadêmicas, de ONGs. Não faltam atores empenhados em se debruçar sobre a brutalidade que é ser mulher. Temos o retrato perfeito (ou escabroso). Temos dados. Temos iniciativas de conscientização, de acolhimento. E precisamos de mais.

Só com investimento conseguiremos, de fato, mudar estatísticas. São duas frentes que precisam ser atacadas: a raiz e a consequência; prevenção e punição. A raiz passa por educação: arrancar as ervas daninhas que permitem a homens enxergarem mulheres como coisas. É reconstruir a ideia do que significa “ser homem”, que deveria ser proteger, não atacar. A consequência é a punição. E aí mora outro problema. No caso da Catarina, por exemplo, o estuprador e assassino é suspeito de ter abusado de uma idosa quando ainda era menor de idade. Se o poder público tivesse cumprido minimamente seu papel, investigado, responsabilizado, acompanhado, talvez a história não se repetisse. Talvez a Catarina estivesse viva.

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