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Luiz Felipe Pondé
Luiz Felipe Pondé Mais sobre o autor

Filósofo e autor de renome, Pondé provoca reflexões profundas sobre o comportamento humano, ética e sociedade. Em sua coluna "Sem Dó", ele disseca as contradições do mundo contemporâneo com sua ironia característica.

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Processos totalitários, tentativa de golpe e os espaços de dominação ideológica no Brasil

A divulgação do resultado do longo processo sobre a tentativa de golpe envolvendo Bolsonaro e sua quadrilha reacende uma discussão que ultrapassa o episódio imediato. O desfecho surge em um momento em que o Brasil precisava, por um lado, que a direita se livrasse de Bolsonaro e, por outro, que a esquerda se livrasse de […]

Por Luiz Felipe Pondé | Atualizado em
Esta é um close-up lateral do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro em um ambiente externo, provavelmente falando ou respondendo a jornalistas.
Câmera Fotográfica Bolsonaro cumpre pena por tentativa de golpe em "sala de Estado" na Superintendência da PF, em Brasília. (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

A divulgação do resultado do longo processo sobre a tentativa de golpe envolvendo Bolsonaro e sua quadrilha reacende uma discussão que ultrapassa o episódio imediato. O desfecho surge em um momento em que o Brasil precisava, por um lado, que a direita se livrasse de Bolsonaro e, por outro, que a esquerda se livrasse de Lula, já que ambos dominam a política brasileira há anos e alimentam a polarização. A análise desse caso permite observar um elemento de fundo que ultrapassa os personagens e alcança a forma como comportamentos totalitários podem se manifestar na sociedade.

A primeira forma é a mais evidente: quando um grupo tenta destruir a ordem democrática por meio da deslegitimação de eleições e da tentativa de derrubar quem venceu, no caso, Lula em 2022. Esse é o tipo mais conhecido de ataque totalitário e, pela primeira vez, o Brasil parece conseguir tratar diretamente dessa ferida histórica. Contudo, existe outra forma, mais lenta e quase invisível, de processos totalitários se estabelecerem.

A experiência da primeira metade do século XX, com fascismo, nazismo e a revolução comunista na União Soviética, mostra que existe um caminho gradual, difícil de localizar, quase líquido, no sentido atribuído por Bauman. Essa segunda forma ocorre quando uma ideologia se encarna no tecido social, seja em universidades, na mídia, nas escolas ou em outros espaços de produção de conteúdo e conhecimento.

Esse tipo de processo atua minando a diversidade de opiniões nesses ambientes. Não depende de golpes diretos, mas de práticas de exclusão. Elas aparecem na demissão de pessoas, na eliminação de interpretações políticas e sociais que ultrapassem os limites da ideologia dominante, na ausência de convites, no bullying cotidiano, na dificuldade para obter financiamento de pesquisas, bolsas e apoio institucional. Trata-se de um processo invisível de afastamento de quem pensa, estuda, escreve ou pesquisa fora da caixinha ideológica que organiza o espaço.

No Brasil, esse fenômeno é reconhecido. Hoje está mais vinculado à esquerda porque ela domina esses ambientes, mas, se fosse a direita, o problema permaneceria. Isso ocorre porque há uma componente totalitária estrutural em toda forma de ideologia militante, independentemente de qual grupo ocupe a posição central em cada momento da história social e política do país.

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