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Marina Izidro
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Jornalista com experiência em coberturas internacionais, Marina Izidro acompanha de perto os desdobramentos políticos, sociais e econômicos do continente europeu. Sua coluna traz as notícias mais relevantes da Europa, com foco nas movimentações do Reino Unido e da União Europeia, impactando a economia e a cultura global.

Janeiro Seco avança na Europa, ganha adeptos e reacende debate cultural e econômico

Iniciativa que propõe um mês sem álcool ganha adesão crescente e provoca reações econômicas e culturais na Europa. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

Para quem acompanha as promessas e resoluções de Ano Novo, uma delas costuma aparecer com frequência: reduzir o consumo de álcool. É nesse contexto que, todos os anos, o mês de janeiro traz à tona uma campanha que provoca reações divididas entre apoio e resistência. Trata-se do chamado Janeiro Seco, ou Dry January, iniciativa que propõe a suspensão voluntária do consumo de bebidas alcoólicas durante todo o primeiro mês do ano.

A campanha surgiu no Reino Unido há cerca de doze anos, criada por uma organização não governamental com o objetivo de incentivar uma reflexão sobre hábitos ligados ao álcool. Em um país onde a cultura dos pubs é fortemente enraizada e onde grande parte da vida social gira em torno da bebida, a proposta não se limita à abstinência temporária. Ela também convida as pessoas a testarem novas formas de convivência social, como sair com amigos sem consumir álcool, e a reavaliar a relação individual com a bebida.

Ao longo dos anos, o Janeiro Seco ganhou cada vez mais visibilidade e adesão. Esse crescimento acompanha uma tendência mais ampla observada em diversos países: o consumo de álcool vem diminuindo, especialmente entre os mais jovens, que demonstram comportamentos associados a estilos de vida considerados mais saudáveis. Com isso, a campanha ultrapassou as fronteiras britânicas e passou a ser adotada em outros países, como França, Austrália, Canadá e Bélgica.

Neste ano, o Janeiro Seco começou no dia primeiro de janeiro e, mais uma vez, gerou debates e protestos, especialmente no Reino Unido e na França. No caso britânico, pesquisas recentes ajudam a dimensionar o alcance da iniciativa. Um levantamento realizado no fim de dezembro pelo instituto YouGov indicou que cerca de 10% dos adultos no Reino Unido pretendem aderir ao Janeiro Seco neste ano. Dentro do universo pesquisado, cerca de 30% afirmaram que não consomem álcool regularmente, o que reforça a percepção de mudança gradual nos hábitos da população.

Apesar do crescimento no número de adeptos, a campanha enfrenta críticas, sobretudo do ponto de vista econômico. Representantes do setor de bares e pubs alertam que janeiro já é tradicionalmente um mês difícil para o comércio. O período de inverno, somado ao fim das festas de final de ano e às viagens, costuma reduzir o movimento nesses estabelecimentos. Nesse cenário, a queda adicional no consumo de bebidas alcoólicas é vista como um fator que pode agravar a situação financeira de muitos pubs. No Reino Unido, é recorrente a divulgação de dados que apontam o fechamento frequente de estabelecimentos do setor, o que reforça a preocupação econômica associada ao Janeiro Seco.

Na França, onde a cultura do vinho e de outras bebidas alcoólicas também ocupa um lugar central na identidade nacional, o debate assume contornos semelhantes, combinando questões econômicas e culturais. O Janeiro Seco existe no país desde 2020, mas o governo federal retirou o apoio oficial à campanha após pressões da indústria de bebidas. De acordo com informações divulgadas pelo jornal Le Monde, cerca de quatro milhões e meio de franceses aderiram à iniciativa em janeiro do ano passado, número que evidencia a relevância do movimento no país.

A resistência, no entanto, permanece forte em algumas regiões. Autoridades locais de áreas tradicionalmente ligadas à produção de vinho manifestaram publicamente contrariedade à campanha. O prefeito de Châteauneuf-du-Pape, região conhecida internacionalmente por seus vinhos, classificou o Janeiro Seco como um insulto à tradição vinícola francesa. Ainda assim, estatísticas indicam que o consumo de álcool na França vem caindo de forma consistente ao longo dos anos, independentemente da campanha.

Diante desse cenário, entidades que representam trabalhadores da indústria de bebidas na França passaram a defender uma abordagem diferente. Para este ano, uma organização nacional que reúne milhares de profissionais do setor pediu que a discussão priorize a moderação no consumo, e não a abstinência total durante o mês de janeiro.

Entre adesões crescentes, críticas econômicas e debates sobre tradição cultural, o Janeiro Seco segue como um fenômeno que reflete transformações mais amplas nos hábitos de consumo e nas relações sociais em diferentes países, especialmente na Europa.