A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou um novo medicamento para o tratamento da doença de Alzheimer em estágio inicial e de pacientes com comprometimento cognitivo leve. Trata-se do lecanemabe, comercializado com o nome Leqembi, desenvolvido pelas farmacêuticas Eisai e Biogen. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União em dezembro e autoriza a comercialização do produto no Brasil, ainda que com restrições.
O lecanemabe integra uma nova classe de medicamentos que atuam diretamente nos mecanismos biológicos da doença. O fármaco é um anticorpo monoclonal que reduz as placas da proteína beta-amiloide no cérebro, um dos principais fatores associados à progressão do Alzheimer. Ao diminuir esse acúmulo, o remédio consegue retardar o declínio cognitivo, embora não reverta nem elimine sintomas como perda de memória, desorientação ou alterações de comportamento.
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A aprovação se baseia nos resultados do estudo internacional de fase 3 Clarity AD, que acompanhou 1.795 pacientes com Alzheimer em fase inicial ao longo de 18 meses. Os participantes que receberam o lecanemabe apresentaram uma redução no ritmo da perda cognitiva em comparação ao grupo que recebeu placebo. Segundo especialistas, os benefícios são mais evidentes quando o tratamento é iniciado precocemente.
Apesar do avanço, a eficácia clínica é considerada moderada. O medicamento não representa uma cura, mas pode prolongar o período de autonomia dos pacientes. Para o neurocientista Mychael Lourenço, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), trata-se de um ganho relevante. Segundo ele, diferentemente de medicamentos mais antigos, como donepezila e memantina, que atuam apenas nos sintomas e perdem efeito ao longo do tempo, o lecanemabe interfere na progressão da doença.
O uso do remédio, no entanto, é restrito. Ele é indicado apenas para pacientes adultos com diagnóstico confirmado de Alzheimer em fase inicial, que apresentem placas de beta-amiloide no cérebro e que não tenham mutações genéticas associadas a maior risco de efeitos adversos, como a variante APOE-e4. Além disso, não deve ser utilizado por pessoas que apresentem sangramentos ou inchaço cerebral, nem por pacientes que fazem uso contínuo de anticoagulantes.
Entre os principais efeitos colaterais observados estão hemorragias cerebrais, edemas no cérebro, dores de cabeça e reações relacionadas à infusão intravenosa, que é feita a cada duas semanas em ambiente hospitalar. Por isso, o tratamento exige acompanhamento médico rigoroso e exames de imagem frequentes.
Outro obstáculo é o custo elevado. Embora o preço ainda não tenha sido definido no Brasil — o que depende da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) —, nos Estados Unidos o tratamento anual pode chegar a cerca de US$ 50 mil. Especialistas avaliam que, devido ao custo e às restrições de uso, a incorporação do lecanemabe ao Sistema Único de Saúde (SUS) é improvável no curto prazo, devendo ficar restrita à rede privada.
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O lecanemabe é o segundo medicamento dessa classe aprovado no Brasil. O primeiro foi o donanemabe (Kisunla), da Eli Lilly, autorizado pela Anvisa em abril de 2025, com mecanismo de ação semelhante e eficácia levemente superior nos estudos clínicos.
No Brasil, cerca de 1,9 milhão de pessoas vivem com Alzheimer, número que pode triplicar até 2050, segundo projeções. Para representantes da indústria farmacêutica, a aprovação do lecanemabe representa um avanço importante diante do crescimento da doença no país. Já especialistas ressaltam que, apesar das limitações, os novos medicamentos indicam progresso científico após anos sem inovações relevantes no tratamento do Alzheimer.
