O recente desabafo da atriz Jennifer Lawrence sobre o trauma vivido após seu cachorro morder seu filho, Cy, trouxe à tona um debate essencial: como garantir uma convivência segura entre animais de estimação e crianças? Em entrevista à TMC, o médico veterinário e adestrador Bernardo Repsold, que já treinou mais de 25 mil cães, explicou que a maioria dos acidentes domésticos pode ser evitada com adestramento adequado, limites claros e a compreensão da linguagem canina.
Segundo Repsold, um dos principais erros das famílias é a “humanização” excessiva, especialmente de raças pequenas, como o chihuahua (raça do cão envolvido no caso de Lawrence). Por serem pequenos, esses cães muitas vezes têm seus limites ignorados. “Muitas famílias não fazem [a socialização] da forma certa. O chihuahua é um cachorro que as pessoas tendem a humanizar muito”, explicou,
Crianças, por sua natureza curiosa, podem ser invasivas: gritam perto do animal, apertam ou puxam pelos. Quando o cão se sente desconfortável e não encontra uma forma de se afastar, ele pode reagir mordendo como uma resposta instintiva para repelir o que o incomoda. “O cachorro, para repelir a criança, acaba mordendo.”
Dicas Práticas para uma Convivência Segura
- Supervisão total: nunca deixe uma criança e um cão sozinhos sem a vigilância de um adulto.
- Criação de um “refúgio”: o cão deve ter um espaço próprio (um cercadinho ou uma área reservada) onde ele se sinta seguro e não seja incomodado.
- Associações positivas: envolva a criança na rotina prazerosa do cão, como na hora da alimentação ou nos passeios, sempre sob supervisão, para criar um vínculo de confiança.
- Educação infantil: é fundamental ensinar as crianças a respeitarem o espaço e o corpo do animal, evitando interações bruscas.
“A gente começa a fazer algumas associações positivas. Na hora da alimentação do cachorro, a criança vai estar presente. Levar o cachorro para passear e a criança estar junto”, exemplificou o adestrador. “Em paralelo, a gente ensina essa criança a interagir melhor com o cachorro, de uma forma mais suave, sem gritar, sem apertar.”
Aprendendo a ler os sinais de desconforto
O adestrador alerta que um cão raramente morde sem aviso. Antes do ataque, ele apresenta “sinais de pacificação” ou desconforto que muitas vezes passam despercebidos pelos tutores:
- Sinais sutis: lamber a ponta do nariz e desviar o olhar.
- Sinais evidentes: eosnar e mostrar os dentes (contração nasolabial).
Ao notar esses sinais, o tutor deve interromper a interação imediatamente para evitar que a situação escale para uma mordida. “As pessoas geralmente só veem o rosnado ou quando o cachorro mostra os dentes, que são sinais mais evidentes. Mas existem sinais mais discretos, como o licking (lambedura na ponta do nariz) e o desviar o olhar.”
Potencial lesivo e raças diferentes
Embora cães pequenos como o pinscher exijam atenção redobrada na socialização por serem naturalmente mais reativos, Repsold destaca que cães de grande porte (acima de 15 kg), como pitbulls, dobermans e rottweilers, possuem um “potencial lesivo” muito maior. Nesses casos, a cautela deve ser dobrada, utilizando guias em momentos de aproximação inicial e realizando simulações controladas antes de conceder liberdade total ao animal próximo a crianças.
Existe idade certa para adestrar?
Uma dúvida comum é se cães adultos ainda podem ser educados. Repsold afirma que qualquer cão pode ser adestrado em qualquer idade. Filhotes, segundo ele, são como “folhas em branco”, o que torna o processo de construção de bons comportamentos mais rápido. Em adultos, o processo pode ser mais lento, pois é necessário “desconstruir” hábitos ruins antes de ensinar os novos, mas o sucesso depende diretamente da dedicação e mudança de atitude dos tutores.
No caso de Jennifer Lawrence, o trauma a levou a substituir a companhia canina pela felina, adotando o gato Fred. No entanto, para as famílias que desejam manter seus cães, o adestramento surge não apenas como uma forma de ensinar truques, mas como uma ferramenta vital de segurança e harmonia doméstica.
