Laura Jadeed, jornalista e repórter da plataforma Slate, contou em uma reportagem sobre como se passou por uma interessada em integrar o ICE – Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA, espécie de “polícia da imigração” – e recebeu uma oferta de emprego após um processo que ela julgou como “desleixado”.
A jornalista afirmou que sua entrevista inicial durou apenas seis minutos, não foi realizada qualquer checagem de background ou de antecedentes criminais, e que ela recebeu uma oferta oficial de emprego mesmo sem entregar todos os documentos que lhe foram pedidos.
Para Laura, o cenário ilustra um perigo de que o batalhão do ICE estaria contratando “qualquer um”, com base “apenas no desejo de trabalhar para o ICE”. A agência policial tem sido notícia nos últimos meses por relatos de violência policial, prisões ilegais, assédio e diversas outras formas de abuso de poder, especialmente em meio a protestos.
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No dia 7 de janeiro de 2026, Renee Nicole Good, de 37 anos, foi morta a tiros por um agente do ICE em Minneapolis. Good, que é cidadã estadunidense, estava no local como observadora legal do ICE – isto é, uma voluntária que monitora forças policiais em operações. Após sua morte, secretários do governo Trump, bem como o próprio presidente, acusaram Good de ser uma “terrorista doméstica” e apoiaram narrativas de que ela teria atacado o agente, que disparou em “legítima defesa”.
O processo seletivo: “Eu nem esperava ser contratada”
Em sua coluna, a Laura Jadeed relata que, a princípio, sua intenção não era infiltrar o ICE, mas sim apenas descobrir como se dava o processo de candidatura e seleção para integrar o batalhão.
Em virtude das diretrizes anti-imigração do governo Donald Trump, bem como o reforço na presença policial em regiões como Minnesota, o ICE prometia “contrato imediato para interessados em ser oficiais de deportação”, um bônus de assinatura de 50 mil dólares, uma conta bancária para aposentadoria e outros benefícios.
Laura afirma que seu currículo deveria, num primeiro momento, “encher os olhos de um recrutador da Gestapo [polícia secreta da Alemanha nazista] americana“, já que ela é ex-militar com experiência em missões no Afeganistão. Portanto, ela fez um “currículo” para a entrevista deixando apenas esta parte de sua experiência profissional, e omitindo sua ocupação atual de jornalista.
A repórter sabia, porém, que “cinco segundos no Google entregariam quem sou e qual minha opinião sobre o ICE, o governo Trump, e o projeto geral da direita no país”. Ela esperava ser aceita para uma entrevista por conta do currículo, e depois ser rejeitada após checarem seu background.
Para sua surpresa, não foi o caso. Laura reporta que todo o processo “não levou mais do que seis minutos“, e que a mulher que a entrevistou “parecia extremamente desinteressada“. A entrevistadora, diz Laura, perguntou apenas sua data de nascimento, experiência militar, e por que ela decidiu deixar o Exército.
“A meta é encher as ruas”: o perigoso critério de seleção (ou ausência deste)
Dados oficiais apontam que o ICE, no momento da posse de Donald Trump em 2024, tinha aproximadamente 10 mil oficiais. Em 2025, o número já girava em torno de 24 mil. Para a jornalista, estes dados e a sua experiência no processo seletivo mostram que “os esforços de recrutamento do ICE são tão desleixados, que o governo efetivamente não faz ideia de quem são as pessoas que estão se juntando à agência”.
Críticos do ICE nos últimos meses têm apontado que a agência poderia estar, supostamente, abrigando criminosos como os insurrecionistas dos ataques ao Capitólio (“January 6th”), mas Laura acredita que a verdade é “ainda pior”. “Estamos todos sem saber quem o Estado está armando, deixando a cargo das tarefas mais delicadas da segurança legal, e mandando para as ruas da América“, afirma.
A jornalista também revelou que, na sua primeira conversa com um policial ativo do ICE, ouviu frases de conotação racista e xenofóbica; o homem teria dito, por exemplo, que Laura iria cuidar de crimes “extremamente comuns” no início, como “bater na esposa, ou coisas assim – o tipo de crime que ‘eles’ [imigrantes sem documentação] cometem“.
O policial também teria dito a Laura que ela provavelmente não realizaria muitas patrulhas pelas ruas logo de cara; quando a repórter afirmou que não ligava, pois se dava melhor com “trabalho de escritório”, ela notou uma mudança drástica de humor no homem. “Sendo sincero, a meta é colocar o maior número possível de armas e insígnias [policiais] nas ruas“, teria confessado o homem.
Contratação sem documento e exames concluídos “no futuro”
Laura diz que recebeu, algum tempo depois, um e-mail pedindo que ela realizasse uma série de processos burocráticos para receber a oferta formal de emprego, como providenciar informações sobre sua carta de habilitação, antecedentes criminais e outros. A jornalista diz que, mesmo não tendo feito nada do que lhe foi pedido, ainda assim recebeu uma nova mensagem “agradecendo pelo procedimento” e requisitando um exame toxicológico.
“De alguma forma, mesmo sem mandar nenhum dos documentos que me pediram – background, identificação, negativa de antecedentes de violência doméstica, nada – o ICE aparentemente me ofereceu um emprego“, afirmou Laura. “Para todos os efeitos, eu virei policial de deportação (…) sem uma assinatura sequer na papelada da agência, o ICE me contratou oficialmente“.
A plataforma de empregos utilizada pelo ICE também teria declarado, no dia 3 de outubro de 2025, que Laura havia passado em um teste de aptidão física no dia 6 de outubro de 2025 – isto é, três dias no futuro.
“‘Está com medo’? Estou”
No fim, Laura Jadeed recusou a oferta de emprego. Ela termina sua reportagem dizendo que estadunidenses “deveriam todos estar com medo” por conta de toda a situação envolvendo o ICE.
“Para todos os efeitos, a única triagem feita pelo ICE é ter ou não desejo de trabalhar para o ICE: um tipo muito específico de pessoa, perfeitamente apta para o tipo de surto de missões que temos visto. O assassinato de [Renee Nicole] Good não foi um caso isolado; a União Americana pelas Liberdades Civis reporta que há uma tendência nacional de casos do ICE apontando armas para, brutalizando, e até prendendo civis que param para filmá-los em ação. Um pastor em Minneapolis protestava contra o ICE dizendo ‘Não temos medo’ e foi detido, sob mira de arma, por um agente que teria lhe perguntado: ‘E agora, você tem medo?’.
Eu tenho. E todos deveríamos ter”, escreveu Laura.
