A eleição presidencial em Portugal será decidida, pela primeira vez em 40 anos, em um segundo turno. A disputa final, marcada para 8 de fevereiro, colocará frente a frente dois candidatos de perfis opostos: o socialista António José Seguro, que terminou o primeiro turno na liderança, e André Ventura, líder do partido de extrema direita Chega. O desfecho do pleito tem repercussões que vão além da política portuguesa e interessa diretamente ao Brasil, sobretudo por seus efeitos simbólicos, migratórios e diplomáticos.
Com 31% dos votos, Seguro ficou em primeiro lugar no pleito realizado neste domingo (18/01), seguido por Ventura, que alcançou cerca de 23%. A votação foi a mais equilibrada desde a redemocratização do país e registrou o maior comparecimento às urnas em duas décadas. A fragmentação do eleitorado impediu que algum candidato ultrapassasse os 50%, quebrando a tradição de eleições presidenciais decididas em turno único desde os anos 1980.
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Ex-líder do Partido Socialista, Seguro construiu sua campanha com um discurso de moderação e diálogo institucional. Professor universitário e fora da política partidária desde 2015, ele se apresentou como um nome capaz de reduzir a polarização e preservar a estabilidade do sistema político. Durante a crise econômica portuguesa entre 2011 e 2014, quando liderava a oposição, defendeu uma postura considerada responsável diante do programa de austeridade imposto ao país, postura que hoje se tornou um trunfo eleitoral.

Ventura, por sua vez, representa a consolidação da extrema direita em Portugal. Fundador do Chega em 2019, ele chegou ao segundo turno com a maior votação de sua trajetória em eleições presidenciais. Sua campanha foi marcada por discursos duros contra a imigração, propostas de endurecimento penal e defesa de uma revisão profunda da Constituição. Embora o presidente português não governe diretamente, Ventura afirma que pretende usar o cargo como instrumento de pressão política para impulsionar mudanças estruturais e fortalecer seu projeto de chegar ao cargo de primeiro-ministro no futuro.
Em Portugal, o presidente da República é chefe de Estado e atua como uma espécie de poder moderador. Cabe a ele sancionar ou vetar leis, dissolver o Parlamento em situações de crise, representar o país no exterior e comandar as Forças Armadas. Mesmo sem conduzir políticas públicas no dia a dia, o ocupante do cargo exerce influência relevante em momentos de instabilidade institucional.
Brasil de olho
O resultado da eleição importa para o Brasil por diferentes razões. Portugal abriga hoje uma das maiores comunidades brasileiras no exterior, com forte presença no mercado de trabalho, no ensino superior, no empreendedorismo e no setor imobiliário. Mudanças no ambiente político tendem a influenciar, ao longo do tempo, políticas migratórias, critérios de regularização e o funcionamento da máquina pública, ainda que de forma gradual.
Além disso, a eventual eleição de um presidente de extrema direita teria impacto simbólico. Um desempenho elevado de Ventura no segundo turno pode servir de referência e estímulo a movimentos semelhantes no Brasil, reforçando discursos e narrativas já presentes no cenário político brasileiro. O próprio Ventura mantém histórico de declarações críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e já se alinhou publicamente a lideranças da direita brasileira.
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Do ponto de vista diplomático, não se esperam mudanças imediatas na relação bilateral entre Brasil e Portugal, tradicionalmente baseada em investimentos e cooperação institucional. Ainda assim, sinais políticos emitidos pelo chefe de Estado português podem repercutir em temas sensíveis da agenda internacional, como o acordo entre Mercosul e União Europeia, mesmo que o presidente não tenha poder formal para barrar tratados.
Assim, o segundo turno em Portugal não define apenas quem ocupará o Palácio de Belém, mas também sinaliza os rumos do debate político em um país-chave para a comunidade brasileira no exterior e para a dinâmica simbólica da política no Brasil.
