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Careca do INSS negociou venda de testes e remédios ao Ministério da Saúde

Antônio Carlos Antunes, alvo da Operação Sem Desconto, reuniu-se com secretário-executivo da pasta e preparou documentos para direcionar compras sem licitação, revelam mensagens obtidas pela PF

Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, tentou negociar com o Ministério da Saúde a venda de medicamentos à base de cannabis, testes de dengue e produtos de nutrição infantil. As tentativas ocorreram entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025, conforme revelam mensagens de WhatsApp analisadas pela Polícia Federal. Apesar de ter sido recebido em reunião ministerial em janeiro de 2025, nenhuma das propostas apresentadas pelo lobista foi aceita pelo governo. A informação é do portal g1.

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, ao autorizar uma fase mais recente da operação em dezembro, caracterizou o Ministério da Saúde como “nova possível área de atuação da organização criminosa”. O magistrado também determinou que a Anvisa investigasse administrativamente “eventuais irregularidades praticadas por servidores públicos”.

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A Operação Sem Desconto, que investiga as fraudes no INSS e trouxe a público as suspeitas contra Antunes, foi deflagrada em 23 de abril de 2025. As negociações com o Ministério da Saúde aconteceram antes da operação policial, no período entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025.

Entre as empresas controladas por Antunes está a World Cann, que atua no setor de cannabis medicinal. Em 19 de dezembro de 2024, ele enviou mensagem aos funcionários: “Preciso de uma reunião com vocês amanhã às 8:45h”, seguida de “Reunião com Berge [sic] às 10:30”, referindo-se a Swedenberger Barbosa, o Berger, então secretário-executivo do Ministério da Saúde.

Dias antes, em 13 de dezembro de 2024, a equipe do lobista compartilhou uma minuta de Termo de Referência (TR) que previa a aquisição de 1,2 milhão de frascos de canabidiol pela pasta. O documento indicava que a compra ocorreria por “dispensa de licitação” e direcionava o negócio para quatro empresas, incluindo a World Cann.

Cada frasco de canabidiol nas concentrações especificadas pode custar entre R$ 400 e R$ 900 no mercado. O TR, documento que normalmente deve ser elaborado pelo próprio ministério, aparentemente foi preparado pela equipe do lobista para ser apresentado à pasta.

O Ministério da Saúde informou em nota que não adquire nem fornece este tipo de medicamento: “O produto sequer está incorporado ao SUS. Nenhuma compra foi realizada e não existe qualquer processo em curso para sua inclusão ou oferta pelo SUS”.

Em janeiro de 2025, após tentar vender canabidiol, Antunes mudou seu foco para a comercialização de testes de dengue. Em 9 de janeiro, informou a seus funcionários sobre uma reunião presencial agendada com Berger para o dia 13. No dia do encontro, o lobista enviou sua localização no Ministério da Saúde e relatou aos funcionários como teria sido a reunião.

“Apresentei os documentos com todos os racionais e ele colocou a seguinte estratégia. Irá fazer uma agenda com secretária Ethel (SVA) para conduzir o processo!“, escreveu Antunes no WhatsApp.

A equipe do lobista preparou um TR para a compra de testes de dengue sem licitação. O documento foi editado por Vitória Sernégio, diretora jurídica da empresa e sobrinha de Antunes, direcionando a compra para testes da fabricante chinesa Alltest, com entrega prevista para “entre março e abril de 2025”.

Em 10 de fevereiro de 2025, parceiros do lobista compartilharam via WhatsApp um contrato firmado entre a empresa detentora do registro dos testes no Brasil e uma terceira empresa importadora.

Ethel Maciel, secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente do ministério, assinou em 16 de janeiro uma nota técnica informando que a pasta estava preparada para distribuir aproximadamente 4,5 milhões de testes de dengue aos estados.

O Ministério da Saúde esclareceu que os testes mencionados na nota técnica já haviam sido adquiridos de outra empresa, sem ligação com o lobista, através de licitação realizada em março de 2024.

Antunes estabeleceu parceria com uma empresa goiana que pretendia fornecer produtos de nutrição infantil ao ministério por intermédio da Indústria Química do Estado de Goiás (Iquego). Uma de suas empresas, a Camilo Comércio e Serviços SA, assinou um memorando de entendimentos confidencial com a DAUS Indústria de Alimentos em 31 de outubro de 2024.

Conforme o documento, o lobista atuaria “de forma consultiva” junto à Iquego no âmbito do Programa de Desenvolvimento e Inovação Local (PDIL), lançado pelo Ministério da Saúde.

O ministério informou que esta tentativa também fracassou. “A documentação [da proposta] foi devidamente analisada pelos colegiados e instâncias responsáveis e reprovada”, informou o órgão, indicando que a rejeição ocorreu em agosto de 2025.

Sobre a reunião com o lobista, o Ministério da Saúde afirmou que “é papel dos gestores da pasta receber, em conformidade com as regras da administração pública, representantes de diversos setores da saúde”.

Berger, que deixou o ministério em março e atualmente ocupa o cargo de chefe do Gabinete Adjunto de Gestão Interna do Gabinete Pessoal do presidente da República, declarou por meio da assessoria do Planalto que “recebeu representantes da empresa World Cann para visita institucional devidamente registrada em sua agenda pública”.

“A agenda ocorreu em conformidade com as atribuições da sua função à época, sem que tenha havido qualquer tipo de ‘orientação’ para a sua realização. Como não houve interesse do ministério em adquirir qualquer produto ou serviço da empresa, o encontro não teve nenhum desdobramento, o que evidencia sua condução técnica e afasta a tese de qualquer tipo de influência política“, afirma o comunicado.

A DAUS justificou a parceria com Antunes afirmando que “o Sr. Antônio Antunes que conhecíamos tinha reputação profissional construída por dezenas de anos de atuação no setor de saúde pública”.

“O projeto foco do acordo firmado com o Sr. Antunes não prosperou, mas mesmo que tivesse, a relação obrigatoriamente seria encerrada em função das cláusulas de segurança contra corrupção”, declarou a empresa. “Não houve qualquer pagamento [ao Careca] pois o projeto não foi aprovado pelo Ministério da Saúde.”

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