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Luiz Felipe Pondé
Luiz Felipe Pondé
Filósofo de destaque, professor universitário e autor de diversos livros, Pondé é conhecido por suas análises ácidas e reflexões profundas sobre a cultura, a sociedade contemporânea e a existência humana. A coluna Sem Dó oferece uma visão crítica e sem concessões sobre os temas do cotidiano, provocando o ouvinte a pensar para além do senso comum.

O poder que corrompe e a esperança de Dostoiévski: uma análise sobre a condição humana

Muitos se surpreendem com o fato de um cético recomendar a leitura de “O Sonho de um Homem Ridículo”, de Dostoiévski. Trata-se de uma obra que, aparentemente, oferece esperança à humanidade, o que pode parecer contraditório à primeira vista. No entanto, Dostoiévski é um dos maiores analistas da modernização e do niilismo, tendo percebido, ainda no século XIX, a perda de referências e a desorientação que enfrentaríamos.

O conto narra a história de um sujeito prestes a cometer suicídio que, em um sonho, visita um outro paraíso. Lá, tudo funciona perfeitamente até que ele começa a fazer perguntas. O ponto central da obra é o momento em que o personagem toma consciência de que ele próprio é o responsável por corromper aquele lugar. A chave do conto é a percepção de que somos tão responsáveis pelos males do mundo quanto qualquer outra pessoa.

Como analista da alma humana — papel reconhecido até por Freud —, Dostoiévski nos mostra como tendemos a achar que os outros são sempre maus e que nós representamos o bem. Só somos capazes de superar certas crises quando descobrimos que não somos necessariamente os representantes do bem em oposição aos outros.

Sobre o tema da esperança, que também permeia a obra do autor cristão, trata-se de algo que me intriga. Ao olharmos ao redor, muitas vezes é difícil ter esperança. Em meu livro “Os 10 Mandamentos (+ 1)”, sugeri que o mandamento extra seria “terás esperança no mundo”. Ter esperança é algo fundamental, apesar de o mundo, frequentemente, não nos oferecer muitos motivos para isso. É nesse ponto que a filosofia e a literatura se encontram.

Outro pensador essencial para compreendermos a nossa realidade é Lord Acton, um britânico do século XIX conhecido por seu realismo sobre o impacto da política na personalidade de quem detém o poder. Sua frase mais célebre — “o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente” — permanece insuperável. Ele também afirmava que “todo grande homem é um homem mau”, sugerindo que, para exercer um enorme impacto na história, o indivíduo muitas vezes ultrapassa limites e toma decisões que fogem ao cotidiano das pessoas comuns.

Essa mecânica do poder sobre os seres humanos é visível em diversos contextos institucionais, inclusive no Brasil. Quando não há freios ou estruturas externas de contenção que limitem uma instituição ou seus membros, há um risco real de desgaste e perda de credibilidade. O que observamos hoje já é objeto de reflexão filosófica pelo menos desde o Renascimento, com Maquiavel. Seria sempre recomendável que os homens de poder revisitassem autores como Maquiavel e Lord Acton.

Para aqueles que buscam expandir suas leituras, deixo duas recomendações: “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë, uma das histórias de amor mais fortes da literatura inglesa, e “A Morte de Ivan Ilitch”, de Tolstoi, que muitos consideram o melhor conto já escrito. São obras que, assim como as de Dostoiévski, nos desafiam a encarar a complexidade da nossa própria existência.

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