O Gabinete do Primeiro-Ministro do Reino Unido encaminhou à polícia britânica documentos que revelam como Peter Mandelson compartilhou informações governamentais com Jeffrey Epstein enquanto ocupava cargos no governo. A entrega ocorreu nesta terça-feira (03/02).
A documentação enviada às autoridades policiais mostra que Mandelson, ex-secretário de negócios e ex-vice-primeiro-ministro, transmitiu a Epstein dados sensíveis sobre a crise econômica de 2008 e medidas oficiais para estabilizar a economia. Autoridades britânicas investigam possíveis violações nos procedimentos de tratamento de informações confidenciais.
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A Polícia Metropolitana confirmou na segunda-feira (02/02) estar ciente da recente divulgação de arquivos relacionados a Epstein e recebeu várias denúncias sobre supostas condutas impróprias em cargo público.
Mandelson, apesar de não ocupar cargo oficial atualmente, mantém seu título de nobreza e assento na Câmara dos Lordes. O porta-voz do primeiro-ministro Keir Starmer informou que autoridades governamentais preparam um projeto de lei para cassar seu título. O governo também está disposto a legislar para sua expulsão da Câmara dos Lordes, caso necessário.
Em entrevista ao The Times publicada na segunda-feira (02/02), Mandelson referiu-se a “alguns e-mails antigos equivocados, que lamento profundamente ter enviado” e descreveu Epstein como “sujeira que não sai da sola do sapato”. Em declaração anterior, ele admitiu: “Errei ao acreditar em Epstein após sua condenação e ao manter minha associação com ele posteriormente. Peço desculpas inequivocamente às mulheres e meninas que sofreram por isso”.
Nos Estados Unidos, o Departamento de Justiça disponibilizou mais de 3 milhões de páginas de documentos relacionados ao caso Epstein. O vice-procurador-geral Todd Blanche explicou que identificaram aproximadamente 6 milhões de páginas como potencialmente relevantes. “É por isso que mencionei há pouco que estamos lançando mais de 3 milhões de páginas hoje, e não os 6 milhões de páginas que coletamos”, declarou.
A Justiça americana analisará nesta quarta-feira (04/02) um pedido da defesa das vítimas para impedir o acesso a arquivos investigativos, após o Departamento de Justiça ter divulgado nomes de vítimas sem qualquer tipo de ocultação.
Jennifer Plotkin, advogada que representa mais de 30 vítimas de Epstein, afirma que a divulgação parcial dos documentos demonstra que “o governo falhou com as vítimas repetidas vezes”. Ann Olivarius, advogada de direitos das mulheres e fundadora do escritório McAllister Olivarius, destacou que as revelações não esclareceram como Epstein conseguiu evadir a justiça até seu julgamento em 2019.
O que foi o “Caso Epstein”, e por que ele importa
Jeffrey Epstein foi um financista estadunidense notório por ter cultivado, com seu dinheiro e influência, um círculo social de elites em todo o mundo. O magnata viria a transformar seu enorme livro de contatos em uma rede global de tráfico e exploração sexual de menores de idade, e chegou a ser condenado por prostituição de uma menor em 2008.
Epstein era conhecido pelas festas que promovia em sua “ilha pessoal”. Participaram dessas festas celebridades, atletas, políticos, empresários, cientistas e pessoas notáveis de praticamente todas as áreas da sociedade, o que também dava a Epstein acesso e poder inimagináveis; tanto pelo contato direto entre ele e as elites, quanto pela conhecida chantagem que o financista realizava com seus clientes, que temiam que Epstein divulgasse o que fizeram na sua mansão caso não o obedecessem. A mansão do financista contava com uma enorme quantidade de câmeras e microfones, capturando tudo que ali acontecia.
Quando o financista foi preso em 2019 por tráfico sexual de menores na Flórida e em Nova York, a população e setores da política dos Estados Unidos pressionaram o governo Trump a extrair de Epstein toda a verdade sobre os “Arquivos Epstein” – suas correspondências, os registros de voos para sua ilha, quem esteve na casa dele ao longo dos anos, entre outros.
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A verdade, porém, ficaria obstruída; no dia 10 de agosto de 2019, Jeffrey Epstein morreu na prisão, alegadamente após se suicidar em sua própria cela. Especialistas forenses desafiam a conclusão do poder público, e uma fita do FBI dizendo mostrar vídeos das câmeras de segurança do presídio possuía quase 3 minutos de imagens perdidas.
A divulgação dos “Arquivos Epstein” foi ignorada, contra a vontade e os protestos da população, pelos governos Biden e Trump até 2025. Depois de prometer, em sua campanha, que divulgaria os Arquivos Epstein caso fosse reeleito, o atual presidente Donald Trump o fez com quase um ano de atraso e resistência.
Documentos nos Arquivos Epstein “podem ser falsos”, alega governo Trump
Os novos documentos divulgados no caso Epstein podem ser livremente acessados no portal do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que encabeça os esforços do Ato de Transparência dos Arquivos Epstein.
Mesmo assim, o próprio Departamento comunicou uma mensagem confusa em nota oficial: no mesmo texto, o órgão afirma que realizou uma inspeção rigorosa da documentação enviada ao FBI, mas também alega que podem existir provas “falsas ou falsamente submetidas”, especialmente aquelas que incluírem “acusações contra o Presidente Trump”.
