O diretor de cinema e dramaturgo Woody Allen, que esteve à frente de filmes como “Meia-Noite em Paris” e “Ponto Final – Match Point”, voltou a aparecer na nova leva dos “Arquivos Epstein” – documentos revelando correspondências, reuniões e outras formas de contato entre Jeffrey Epstein, financista e dono de uma rede de exploração e tráfico sexual de menores de idade, e seus clientes.
A ligação entre Allen e Epstein já era conhecida desde as primeiras revelações no caso; nos novos documentos, divulgados na última sexta-feira (30/01), o nome do diretor apareceu pelo menos mais duas vezes em e-mails enviados pelo bilionário, morto em 2019 enquanto servia sua sentença na prisão por tráfico de menores e prostituição infantil.
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Em uma conversa por e-mail, Lesley Groff, assistente de Epstein na época, entrou em contato com Martha Stewart – apresentadora de TV e empresária – para convidá-la a um jantar com Epstein, Woody Allen e sua esposa Soon Yi.
Em 2016, o próprio Epstein aparece conversando com um contato ligado a Deepak Chopra – médico indiano radicado nos EUA – perguntando se “Leo DiCaprio* teria interesse em jantar com Woody [Allen]”. Chopra chegou a responder dizendo que checaria com o ator de Hollywood, mas não há indícios nos relatos de como a situação evoluiu a partir daí.
*Nota: no e-mail, o nome aparece como “l=o dicaprio”; acredita-se que o motivo pelo qual esta – bem como muitas outras palavras nos documentos – apresentam o símbolo “=” no lugar de algumas letras se deva a um erro de transcrição.
Em 2017, novos e-mails mostram Epstein convidando a personalidade midiática Dick Cavett e sua esposa para outro jantar com Woody Allen e Soon Yi, para o qual Cavett estava indisponível.
Outro e-mail revela que Brad Karp, advogado conhecido em Wall Street, entrou em contato com Epstein para conseguir um trabalho para seu filho em um filme de Woody Allen. Epstein respondeu: “Claro, vou perguntar”.
O próprio Woody Allen afirmou, em dezembro de 2025, que “não sente remorso” por sua amizade com Epstein, do qual era vizinho em 2010. Em setembro, ainda em 2025, Allen também saiu em defesa do financista, dizendo que não viu nenhuma menor de idade na companhia de Epstein quando moravam próximos.
Allen ainda teria descrito o amigo como “charmoso e gentil”.
O que foi o “Caso Epstein”, e por que ele importa
Jeffrey Epstein foi um financista estadunidense notório por ter cultivado, com seu dinheiro e influência, um círculo social de elites em todo o mundo. O magnata viria a transformar seu enorme livro de contatos em uma rede global de tráfico e exploração sexual de menores de idade, e chegou a ser condenado por prostituição de uma menor em 2008.
Epstein era conhecido pelas festas que promovia em sua “ilha pessoal”. Participaram dessas festas celebridades, atletas, políticos, empresários, cientistas e pessoas notáveis de praticamente todas as áreas da sociedade, o que também dava a Epstein acesso e poder inimagináveis; tanto pelo contato direto entre ele e as elites, quanto pela conhecida chantagem que o financista realizava com seus clientes, que temiam que Epstein divulgasse o que fizeram na sua mansão caso não o obedecessem. A mansão do financista contava com uma enorme quantidade de câmeras e microfones, capturando tudo que ali acontecia.
Quando o financista foi preso em 2019 por tráfico sexual de menores na Flórida e em Nova York, a população e setores da política dos Estados Unidos pressionaram o governo Trump a extrair de Epstein toda a verdade sobre os “Arquivos Epstein” – suas correspondências, os registros de voos para sua ilha, quem esteve na casa dele ao longo dos anos, entre outros.
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A verdade, porém, ficaria obstruída; no dia 10 de agosto de 2019, Jeffrey Epstein morreu na prisão, alegadamente após se suicidar em sua própria cela. Especialistas forenses desafiam a conclusão do poder público, e uma fita do FBI dizendo mostrar vídeos das câmeras de segurança do presídio possuía quase 3 minutos de imagens perdidas.
A divulgação dos “Arquivos Epstein” foi ignorada, contra a vontade e os protestos da população, pelos governos Biden e Trump até 2025. Depois de prometer, em sua campanha, que divulgaria os Arquivos Epstein caso fosse reeleito, o atual presidente Donald Trump o fez com quase um ano de atraso e resistência.
Documentos nos Arquivos Epstein “podem ser falsos”, alega governo Trump
Os novos documentos divulgados no caso Epstein podem ser livremente acessados no portal do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que encabeça os esforços do Ato de Transparência dos Arquivos Epstein.
Mesmo assim, o próprio Departamento comunicou uma mensagem confusa em nota oficial: no mesmo texto, o órgão afirma que realizou uma inspeção rigorosa da documentação enviada ao FBI, mas também alega que podem existir provas “falsas ou falsamente submetidas”, especialmente aquelas que incluírem “acusações contra o Presidente Trump”.
