O cantor Bad Bunny fez um discurso, esta semana aqui nos Estados Unidos, no Super Bowl, que falava de uma América inclusiva, da ideia de amor e paz contra a violência do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) e do governo Trump. Essa frase, inclusive, foi cantada também no Brasil, como uma frase significativa.
É necessário, quando a gente é responsável pela atividade de pensamento público, pontuar, como eu já tive a chance de pontuar aqui na TMC, que frases de artistas não significam nada para grande parte da população. Zero. Porque grande parte da população vê esses artistas como parte do problema e não como parte da solução.
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Os artistas tendem a se emocionar com a própria voz, assim como muitos jornalistas o fazem com a sua própria. A verdade é que há uma imensa população, nos Estados Unidos, que votou no Trump, exatamente por conta do problema dos imigrantes legais.
Mesmo levando-se em conta a violência que o ICE e a polícia de fronteira estão fazendo e a paranoia que, de fato, instala-se em alguns lugares dos Estados Unidos, a maioria da população segue o seu dia a dia, preocupado, por exemplo, com os preços altíssimos de tudo por aqui e não liga para que alguém venha falar que a América deve ser inclusiva.
É claro que a América é um continente, mas, para grande parte dos americanos, essa frase “América inclusiva” é nada mais do que uma espécie de frase simpática para dizer que todos têm o direito de invadir os Estados Unidos.
Talvez uma analogia que possa nos ajudar a entender esse problema é a seguinte: imagine que você é uma pessoa preocupada com população de rua, população em condição de rua, população vulnerável. Agora, imagine que, de repente, fosse dada a autorização para que contingentes enormes dessa população entrasse na sua casa e começasse a morar nela e alguém dissesse que você deve ser inclusivo. O que você pensaria?
Isso é mais ou menos o que muitos americanos pensam, mesmo parte da população latina, população já legalizada ou que está aqui como imigrante legalizada, ou mesmo já tendo nascido aqui, ou primeira, segunda geração, não olha, necessariamente, com bons olhos os imigrantes legais. Não há, digamos assim, essa identificação étnica que algumas pessoas pensam que existe entre os latinos Estados Unidos.
Muita gente está preocupada com seu dia a dia, e muitos deles preocupados com o fato de que muitos imigrantes ilegais competem com eles no trabalho porque ganham menos, aceitam menores salários. E aí, como sempre, o problema é se alguém vai atrapalhar a grana da sua janta. Essa é uma das principais categorias de análise política que a gente pode imaginar.
Por outro lado, tanto Trump quanto o Biden são, talvez, os dois primeiros presidentes americanos que são vítimas da própria bolha. O Biden abriu as portas dos Estados Unidos para imigrantes ilegais. Ao mesmo tempo, estava preocupado com temas envolvendo questões de gênero, como se a maior parte da população americana tivesse preocupado com isso.
Ao mesmo tempo, a bolha trumpista não enxerga que a violência do ICE tem atingido certos níveis que pode se virar contra o partido republicano nas eleições para parlamento. Então, quando políticos se tornam vítimas das próprias bolhas, eles perdem a capacidade de articulação e perdem capacidade cognitiva de ação.
Quando qualquer pessoa vive numa bolha, ela perde capacidade cognitiva, que é mais ou menos um jeito chique de falar, que ela fica um pouco menos inteligente. Portanto, é fundamental lembrar que para grande parte dos americanos, o discurso da “América inclusiva” é uma desculpa para deixar todo mundo invadir o quintal deles.
