Marca registrada de competência e autoridade na cobertura de esportes americanos, Everaldo Marques acrescentou mais um atributo relevante ao seu currículo durante a transmissão do Super Bowl LX.
Ao destacar a estreia de Antony Curti comentando seu primeiro Big Game in loco, Evê demonstrou ombridade. O gesto reforçou o valor editorial da equipe da Globo e, ao mesmo tempo, diluiu qualquer narrativa de rivalidade com a ESPN, historicamente associada à NFL no Brasil, em favor de um discurso coletivo de crescimento da modalidade no país.
A atitude nobre repercutiu bem. Entrou nas conversas sociais de uma transmissão equilibrada, com padrão de qualidade Globo e boa execução no YouTube, dentro do que a emissora vem chamando de sua estratégia multiplataforma desde o lançamento da GE TV.
A cobertura levou Mariana Spinelli, contratada para o projeto do novo canal, a San Francisco ao lado de um dos principais narradores da casa, além de integrar o Multishow na análise do show do intervalo, com especialista dedicado ao tema.
O resultado foi uma percepção de empatia com dois públicos: o fã já fidelizado da NFL e um contingente que começa a descobrir a liga agora. A elevação de reputação e confiança, porém, contrasta-se com outro episódio recente envolvendo a GE TV.
Na semana anterior, Jorge Iggor protagonizou um vídeo em tom de deboche às críticas recebidas pelos critérios adotados pelo Grupo Globo na análise de arbitragem de jogos do Flamengo (lembrando que o mérito da discussão aqui não é esse!)
O ponto é que a forma escolhida pelo narrador titular da GE TV para reagir gerou forte repercussão negativa, e, de certa forma, colocou em xeque a credibilidade editorial que está sendo construída até aqui.
Os episódios dicotômicos dão contexto a uma análise divulgada pela Timelens no fim de janeiro. A empresa de tecnologia e dados cruzou buscas no Google e menções em redes sociais para mapear interesse e percepção.

Ao perguntar se a GE TV estaria, de fato, se tornando uma concorrente relevante da CazéTV no digital, o estudo mostrou que, embora a GE TV tenha registrado um volume de buscas três vezes maior no fim do ano, perde no indicador de sentimento, com uma taxa de menções negativas de 37%, contra 25% da CazéTV.

Os casos são oportunos porque deslocam o debate dominante de “quem ganha a audiência” para uma discussão mais ampla sobre o que a Globo define por “estratégia multiplataforma”. Trata-se de uma aposta fortemente apoiada em um modelo de esporte gratuito, massivo e de narrativa informal, consolidado pela CazéTV como um case referência global.
A transmissão do Super Bowl é uma exceção bem-executada dentro da escalada acelerada da GE TV. O canal, segundo a Timelens, já superou a CazéTV em volume bruto de menções, mas desde setembro tem operado mais como uma réplica fiel do disruptor do que como uma proposta própria de mídia legada adaptada ao ambiente digital.
No fim do ano passado, veículos especializados noticiaram o desconforto da alta cúpula da Globo com os excessos da proposta sustentada pela narrativa padrão voltada à Gen Z, frequentemente ancorada em humor forçado, e a possibilidade de ajustes a partir de 2026. O incômodo faz sentido.
Ao emular quem quebrou paradigmas no mercado, a emissora sexagenária corre o risco de abdicar de sua maior vantagem competitiva: oferecer uma leitura própria, institucionalmente relevante, em um ecossistema cada vez mais dominado pela cultura do vídeo social.
E esse movimento não exige antagonismo entre mídia tradicional e criadores. Recentemente, Dhar Mann, fundador do Dhar Mann Studios, que acaba de fechar uma parceria com a Fox nos Estados Unidos, explicou bem essa relação ao defender um modelo de simbiose. Segundo ele, seu estúdio não opera distribuição internacional em televisão. Quem faz isso é a Fox!
É a mesma premissa que venho explorando a fundo ao destrinchar o case BBC e YouTube. A centenária emissora britânica entende que investir em formação de criadores, desenvolvimento de pipeline e usar o YouTube como rota principal de crescimento é reconhecer que a construção de audiência não começa mais em plataformas proprietárias. Mirar o fluxo real do público tornou-se tão central quanto, no passado, desenhar uma grade.
Em um briefing recente para produtoras, a BBC frisou a capacidade de combinar histórias nativas do YouTube com rigor editorial.
A BBC está no YouTube desde 11 de novembro de 2005. Hoje, opera um exército de mais de 101 canais de marcas globais, que somam mais de 175 milhões de inscritos e cerca de 15 bilhões de visualizações. Como analisaram Paola Marinone e Bengü Atamer, a emissora usa a plataforma para funcionar como uma rede de emissoras de nicho especializadas.
Esta é a aplicação prática do que Evan Shapiro descreveu quando conversamos no ano passado sobre a colisão entre mídia tradicional e economia dos criadores. “A ideia de simplesmente falar com as massas como modelo de negócios está praticamente encerrada”, disse ele. O novo campo de disputa são milhares de nichos hiperengajados. Shapiro prevê a fusão desses mundos em uma “grande economia de afinidade do entretenimento”.
O case da GE TV parece ser um laboratório isolado enquanto a Globo empilha trechos de programas e novelas antigas no YouTube.
Stephen Loguidice perguntou esta semana se o acordo BBC e YouTube é o primeiro documento de rendição da mídia tradicional. Diria que sim!
O caminho escolhido pela BBC traduz o momento de criadorificação da mídia: encontrar um meio-termo entre a agilidade dos criadores e a estrutura das instituições, no contexto em que o vídeo vertical é apenas a casca de uma transformação mais profunda.
O esporte ao vivo puxa essa fila. Mas, como mostra a BBC, o desafio real é saber se a televisão está preparada para seguir o público, em vez de se apegar a definições que já não explicam o consumo. Ficar preso ao elo mais visível da disrupção é deixar sobre a mesa a oportunidade de uma transformação mais profunda.
