A The Economist, publicação britânica que é referência mundial em economia, publicou na quinta-feira (12/02) um artigo que usa o Brasil como alerta para economias desenvolvidas. O The Economist adverte que países ricos deveriam temer a “Brasileirização” de suas economias, fenômeno caracterizado por juros elevados que tornam a dívida pública cada vez mais difícil de administrar.
O paradoxo brasileiro apresentado pela revista combina crescimento econômico e orçamento primário “quase equilibrado” com uma dinâmica de endividamento considerada problemática. Com a taxa Selic em 15% ao ano, o Brasil “provavelmente tomará emprestado cerca de 8% do PIB por ano apenas para pagar a conta de juros”, mesmo com as contas primárias próximas do equilíbrio.
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As instituições brasileiras são descritas pela The Economist como “frágeis”, tendo chegado a “vacilar” durante a tentativa de golpe do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2022. A publicação também aponta que a inflação no Brasil teria “um pavio mais curto”, resultado do trauma da hiperinflação dos anos 1980 e 1990 e da crise econômica da década passada.
Dados do Fundo Monetário Internacional citados pela revista mostram que a dívida pública bruta do Brasil alcançará 99% do PIB em 2030, um aumento significativo em comparação aos 62% registrados em 2010. Atualmente, “Sua dívida líquida, em 66% do PIB, é alta para os padrões de mercados emergentes, mas baixa para os do mundo rico.”
O presidente Lula, candidato à reeleição em outubro de 2026, enfrenta diretamente as consequências dessa situação fiscal. Segundo a revista, o atual mandatário “afrouxou os cordões da bolsa”, reduzindo as possibilidades de um ajuste fiscal rigoroso no curto prazo.
O Brasil destina aproximadamente 10% do PIB ao pagamento de aposentadorias. Sem reformas, de acordo com a The Economist, o país gastará mais com pensões em 2050 do que nações “mais ricos e mais envelhecidos”.
A rigidez do gasto público brasileiro é destacada como fator agravante pela publicação. “Ainda assim, as pensões são protegidas na Constituição, que, por exemplo, determina que, quando o salário mínimo sobe, os aposentados também recebam mais. O controle extraordinário dos pensionistas sobre o orçamento dificulta o equilíbrio das contas e também desloca outros gastos mais valiosos.”
Para a The Economist, o Brasil funciona como um “alerta antecipado” para economias avançadas. “A aflição fiscal do Brasil lança em relevo os orçamentos do mundo rico”, destaca o texto. O editorial afirma que os Estados Unidos já mostram sintomas iniciais do processo de “brasileirização”: instituições sob pressão e inflação mais difícil de controlar após a pandemia.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, segundo a publicação, “politizou o Departamento de Justiça”, busca controlar o Federal Reserve e “cogita federalizar as eleições”. Assim como no Brasil, o peso crescente de aposentadorias e gastos com saúde tende a pressionar os orçamentos de países desenvolvidos.
Em análise publicada na quinta-feira (12/02), a revista havia afirmado que, apesar de indicadores positivos, a trajetória da dívida brasileira é “insustentável” e que “os pessimistas estão certos em prever problemas”. Para a The Economist, a crise fiscal brasileira não se explica apenas pelas políticas do governo Lula, mas por um sistema capturado por interesses poderosos, muitos protegidos pela Constituição.
A revista reconhece avanços recentes no Brasil, como o teto para isenções e o IVA dual, que pode elevar o PIB em até 4,5% até 2033, mas avalia que, sem mudanças estruturais, o país continuará preso a um modelo fiscal insustentável.
“Pode parecer dolorosamente difícil, em um mundo populista, ao mesmo tempo, prometer baixa inflação e gastar menos com os idosos. Mas isso não é nada comparado à escolha agonizante que se aproxima do Brasil: entre uma austeridade profunda e uma espiral aterradora de juros e dívida”, conclui a publicação.
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Segundo a The Economist, as eleições de outubro de 2026 serão importantes para determinar se o Brasil conseguirá evitar uma estagnação econômica. A revista indica que os parlamentares que serão eleitos precisarão “encontrar a coragem” para “enfrentar os interesses arraigados” que dificultam reformas estruturais no país.
“As estimativas dos custos econômicos variam, mas são da mesma ordem de grandeza da perda de crescimento devido à falta de credibilidade fiscal, o que equivale a talvez meio ponto percentual do PIB anualmente”, afirma a publicação, classificando o sistema tributário brasileiro como uma “bagunça”.
