O cenário político de 2026, embora ainda em construção, já apresenta fissuras significativas no campo da direita. O que deveria ser um movimento de unificação em torno da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República tem revelado, na prática, uma série de impasses estratégicos, trocas de farpas públicas e rearranjos regionais que desafiam a liderança do ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso no Distrito Federal.
No maior colégio eleitoral do país, a tensão entre o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e seu secretário de Governo, Gilberto Kassab (PSD), personifica o dilema da direita moderada versus a ala bolsonarista.
Acompanhe tudo o que acontece no Brasil e no mundo: siga a TMC no WhatsApp
Kassab já defendeu publicamente que Tarcísio seria o nome mais competitivo para o Planalto, chegando a classificar a opção do governador pela reeleição em São Paulo como “submissão” a Bolsonaro. Em resposta direta, Tarcísio reafirmou sua “lealdade” ao ex-presidente e seu apoio a Flávio Bolsonaro, rebatendo que se trata de “gratidão”, com direito a uma espetada no aliado. “Quem fala de submissão, não entende nada de lealdade.”
O impasse reflete uma disputa por espaço na chapa estadual: enquanto Kassab tenta manter o PSD na vice de Tarcísio, o PL e o MDB também pleiteiam o posto, aumentando a pressão sobre o governador para definir seu raio de aliança.
Eduardo Bolsonaro e a cobrança por engajamento
A temperatura também subiu no núcleo duro do bolsonarismo. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro, em autoexílio nos Estados Unidos, utiliza constantemente as redes sociais para cobrar maior empenho de aliados na promoção da candidatura do irmão, Flávio. Eduardo acusou figuras centrais da direita de “omissão deliberada” e “interesse próprio”.
As críticas atingiram diretamente o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). Eduardo sugeriu que Nikolas e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro sofrem de “amnésia” por não demonstrarem apoio público vigoroso à chapa presidencial. O mineiro rebateu as críticas neste sábado (21/02), após visitar Jair Bolsonaro na prisão: afirmou que não tem amnésia, defendeu Michelle e sinalizou que o bloco conservador deveria focar em “um inimigo em comum” em vez de criar divisões internas.
Essa briga não nasceu no vácuo. Em dezembro de 2025, os dois já haviam batido de frente devido a questões diplomáticas e judiciais envolvendo os Estados Unidos e o ministro Alexandre de Moraes. Após a Casa Branca flexibilizar o tarifaço, o que foi considerado uma vitória do governo Lula, Eduardo Bolsonaro criticou a direita brasileira pela falta de apoio às suas investidas internacionais.
Na época, Nikolas Ferreira classificou a postura de Eduardo como uma “fraude intelectual”. O deputado argumentou que era injusto culpar os parlamentares que estão no Brasil — segundo ele, enfrentando riscos jurídicos e “pressões reais” — por decisões geopolíticas estrangeiras. Eduardo respondeu dizendo que “se a carapuça serviu, paciência”.
O canhão do filho 03 de Jair Bolsonaro já mirou outros aliados como os governadores Romeu Zema (Novo-MG), Ronaldo Caiado (PSD-GO), Ratinho Júnior (PSD-PR) e até Tarcísio, acusando-os de “oportunistas” por não seguirem à risca as diretrizes do clã Bolsonaro. Ao governador de São Paulo, Eduardo mostrou seu lado mais feroz. Intensificou ataques públicos em meio às articulações para 2026, chamando-o de “candidato do sistema” e afirmando que o ex-ministro é apenas “pintado de direita”, além de sustentar que sua projeção nacional depende exclusivamente de Jair Bolsonaro.
O principal ponto de atrito foi a postura de Tarcísio durante a crise das tarifas dos EUA. O ex-parlamentar criticou o governador por buscar diálogo com empresários e com a embaixada dos EUA após medidas econômicas de Donald Trump, classificando a postura como “subserviência servil”. Na visão de Eduardo, apenas uma intensa pressão ao Judiciário e ao Executivo brasileiros via sanções poderia possibilitar a aprovação da anistia.
O entrave de Santa Catarina: chapa pura vs. alianças
O racha mais recente e pragmático ocorre em Santa Catarina. Contrariando o desejo do governador Jorginho Mello (PL) e do presidente do PP, Ciro Nogueira, Jair Bolsonaro sinalizou que o PL terá “chapa pura” para o Senado em 2026, composta pela deputada Carol de Toni e pelo ex-vereador Carlos Bolsonaro, que trocou o Rio de Janeiro pelo estado sulista como domicílio eleitoral.
A decisão isola o senador Esperidião Amin (PP), aliado histórico do bolsonarismo, que contava com o apoio do PL para sua reeleição. A mudança de planos irritou o Progressistas (PP). Ciro Nogueira reagiu publicamente, afirmando que seu partido “acredita em palavra”, sinalizando o desgaste na confiança entre as siglas.
Leia mais: Carlos Bolsonaro diz que pai elabora lista com pré-candidatos da direita neste ano
Além disso, o movimento gerou incerteza regional e pode empurrar o PP e o União Brasil para alianças com o PSD de João Rodrigues, fragmentando a base de apoio que elegeu Jorginho Mello.
A fragmentação da direita em 2026 evidencia um conflito entre o pragmatismo eleitoral — que busca alianças de centro para garantir governabilidade e tempo de TV — e a manutenção da pureza ideológica exigida pelo clã Bolsonaro. Com o ex-presidente coordenando estratégias de dentro da prisão, o desafio do grupo será transformar esses rachas em um projeto de consenso antes do início oficial da campanha.
