A saúde mental deixou de ser um tema restrito a consultórios e passou a ocupar espaço central no debate público. Ao mesmo tempo, a digitalização dos serviços de saúde tem alterado o comportamento de quem busca apoio psicológico ou psiquiátrico. No Brasil, a combinação entre tecnologia e acolhimento vem sendo apontada como um dos fatores que ajudam a reduzir o estigma historicamente associado ao tratamento emocional.
Esse movimento foi reconhecido internacionalmente em 2026, quando a empresa brasileira Somente recebeu o prêmio de melhor Organização de Saúde Mental do Brasil no GHP Mental Health Awards 2026, promovido pela Global Health & Pharma (GHP). A premiação destaca iniciativas que “desafiam o estigma” e colocam a compaixão e a humanidade no centro da inovação em saúde mental.
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Criada em 2020, no início da pandemia de Covid-19, a Somente surgiu em um momento em que a telemedicina ganhava espaço e milhões de pessoas enfrentavam isolamento, ansiedade e insegurança. A proposta da empresa foi oferecer consultas psiquiátricas e psicológicas de forma digital, com agendamento rápido e atendimento no mesmo dia. “Nosso compromisso vai além do atendimento imediato: buscamos acolhimento com empatia, escuta ativa e respeito à individualidade”, afirma Michel Burmaian, fundador e CEO.
Outras empresas brasileiras também vêm impulsionando a digitalização da saúde mental. A Vittude consolidou-se como referência em psicologia e psiquiatria online, com forte atuação no mercado corporativo (B2B), oferecendo programas de apoio emocional para colaboradores de empresas.
Já a Starbem se destaca pela integração de serviços de saúde mental e bem-estar em plataformas voltadas ao ambiente empresarial, combinando acompanhamento psicológico, orientação médica e soluções preventivas. O avanço dessas healthtechs reforça a tendência de incorporar o cuidado emocional à rotina, tanto individual quanto corporativa. O Grupo Wulka, por sua vez, aposta no modelo de “boutique digital”, oferecendo atendimento psiquiátrico personalizado com foco em profundidade clínica e estabilidade da equipe.
Acesso mais simples, menos barreiras
Um dos principais entraves para quem precisa de ajuda emocional é o receio de julgamento. O medo de ser visto entrando em um consultório, a dificuldade de marcar consulta por telefone ou a demora no atendimento podem funcionar como barreiras psicológicas.
A digitalização ajuda a reduzir esses obstáculos. Dados da Doctoralia indicam que 85% dos agendamentos médicos no Brasil já são feitos por celular ou tablet. No caso da saúde mental, a possibilidade de marcar uma consulta em poucos minutos, pelo telefone, e ser atendido em casa cria um ambiente mais reservado e confortável.
Ao eliminar deslocamentos e simplificar o processo, a psiquiatria digital diminui a fricção entre reconhecer o problema e buscar ajuda. Esse intervalo é decisivo, especialmente em casos de ansiedade e depressão, em que a procrastinação pode agravar o quadro.
Do atendimento pontual ao cuidado contínuo
Além da facilidade de acesso, outro ponto central é a mudança de mentalidade: saúde mental deixa de ser tratada apenas em momentos de crise e passa a integrar a rotina de cuidados preventivos.
A Somente reúne psiquiatras e psicólogos em uma única plataforma e adota um modelo de acompanhamento contínuo. Após o primeiro atendimento, o paciente pode seguir com consultas periódicas, com ajustes de tratamento conforme a evolução clínica. A proposta é fortalecer o vínculo e estimular a prevenção, em vez de atuar apenas em situações emergenciais.
Esse formato contribui para normalizar o cuidado emocional. Quando a consulta ocorre na palma da mão, com a mesma naturalidade de outros serviços digitais, o tratamento deixa de ser exceção e passa a ser parte da vida cotidiana.
Mudança cultural em curso
O Brasil enfrenta índices elevados de ansiedade e depressão, e especialistas apontam que uma parcela significativa das pessoas com diagnóstico ainda não recebe tratamento. Nesse cenário, iniciativas que ampliam o acesso e simplificam a jornada do paciente ganham relevância.
Ao ser reconhecida internacionalmente por “desafiar o estigma” e colocar a humanidade no centro da inovação, a Somente exemplifica uma tendência mais ampla: a transformação do cuidado emocional em um serviço acessível, rápido e menos exposto ao julgamento social.
A psiquiatria digital, ao unir tecnologia e acolhimento, vem ajudando a romper barreiras históricas. O resultado é uma mudança de comportamento: buscar ajuda deixa de ser sinal de fraqueza e passa a ser entendido como parte essencial do cuidado com a saúde.
Quando a teleconsulta em psiquiatria é indicada
A teleconsulta psiquiátrica é indicada para a maioria das situações clínicas em que o paciente busca avaliação especializada com praticidade, rapidez e segurança. O atendimento online segue os mesmos critérios técnicos e éticos da consulta presencial e permite diagnóstico, prescrição e acompanhamento contínuo.
Ela é especialmente recomendada nos seguintes casos:
- Primeira avaliação psiquiátrica, quando a pessoa apresenta sintomas de ansiedade, depressão, alterações de humor, insônia ou dificuldade de concentração e deseja orientação especializada.
- Acompanhamento de pacientes já em tratamento, para monitorar evolução clínica, ajustar medicação e reforçar o plano terapêutico.
- Transtornos mentais comuns, como transtorno de ansiedade generalizada, síndrome do pânico, fobias, depressão leve a moderada, transtorno bipolar em fase de manutenção e TDAH em adultos.
- Quadros relacionados ao estresse e burnout, cada vez mais frequentes no contexto profissional.
- Pacientes que vivem longe de grandes centros, têm dificuldade de locomoção ou rotina intensa de trabalho.
- Pessoas que preferem maior privacidade, realizando a consulta em casa, em ambiente reservado.
A teleconsulta também é indicada para garantir continuidade do cuidado, evitando interrupções no tratamento. Muitos pacientes iniciam atendimento presencial e depois migram para o modelo online sem prejuízo da qualidade clínica.
Quando não é a melhor opção
Apesar das vantagens, a teleconsulta não substitui o atendimento presencial em todas as situações. Casos de emergência psiquiátrica, como risco iminente de suicídio, surtos psicóticos graves ou necessidade de contenção física, exigem avaliação presencial imediata.
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Também pode haver limitação quando o paciente não dispõe de ambiente privado, conexão estável ou apresenta dificuldade significativa de comunicação por vídeo.
Em todos os casos, cabe ao psiquiatra avaliar a situação e orientar o formato mais seguro e adequado, priorizando a qualidade e a segurança do cuidado.
