O começo da temporada do futebol nacional tem apresentado arquibancadas menos cheias na elite do Campeonato Brasileiro Série A. Com a conclusão das quatro primeiras rodadas, a média de público da competição está em 18,5 mil torcedores por jogo, o que representa uma redução de 19% em comparação ao mesmo momento de 2025, quando a média alcançava 22,9 mil.
Os dados atuais contrastam com o desempenho recente do torneio após o período da pandemia. Nos últimos anos, o Campeonato Brasileiro Série A registrou algumas das maiores médias de público de sua história: 26.502 pessoas por partida em 2023, 25.778 em 2024 e 25.531 em 2025, números que hoje figuram entre os três maiores já registrados na competição.
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Entre os clubes que lideram as médias de presença nas arquibancadas em 2026 aparecem Flamengo (56,4 mil), Bahia (40,4 mil) e Fluminense (26,7 mil). Na sequência estão São Paulo Futebol Clube (22,8 mil) e Athletico Paranaense (21,9 mil), completando o top 5 até aqui.
Especialistas indicam que alguns fatores ajudam a compreender o cenário atual. Um deles é o calendário reformulado do futebol nacional, que fez o Brasileirão começar mais cedo em 2026, ainda em janeiro, aumentando a quantidade de partidas nas primeiras semanas da temporada. O preço dos ingressos também surge como elemento relevante nessa equação.
De acordo com Fábio Wolff, sócio-diretor da agência de marketing esportivo Wolff Sports, a mudança no calendário alterou a dinâmica de consumo do torcedor. “A mudança do Campeonato Brasileiro para o início do ano trouxe um cenário novo, em que clubes disputam estadual, Brasileirão e rodadas iniciais da Copa do Brasil, em alguns casos, tudo ao mesmo tempo. Com muitos jogos em disputa e o elevado valor dos ingressos, sobretudo nos principais centros do país, o torcedor pode acabar sendo obrigado a escolher jogos específicos, sejam aqueles de perfil de mata-mata ou as partidas do campeonato nacional”, analisa.
“A padronização de horários fora do que foi comum por muitos anos também pode ser levada em consideração, com partidas cada vez mais cedo durante a semana e no período noturno aos finais de semana”, destaca Fábio Wolff.
Novas opções de entretenimento ganham espaço
Analistas avaliam que a queda nas primeiras rodadas pode ser circunstancial, mas ressaltam a importância de os clubes seguirem investindo em estratégias para manter o público próximo ao estádio ao longo da temporada. Programas de sócio-torcedor atrativos, promoções e ações de marketing são apontados como caminhos para fortalecer essa relação.
No médio e longo prazo, outra variável relevante é a mudança no comportamento do público, especialmente entre os mais jovens. O estudo “Faces do Esporte”, da MindMiners, mostra que a Geração Z tem priorizado o consumo de esportes pelas redes sociais (56%), superando até a TV aberta (54%). Entre pessoas dessa faixa etária, 61,3% se consideram gamers, conforme a Pesquisa Game Brasil de 2025.
Nesse contexto, formatos esportivos que incorporam elementos de games vêm ganhando visibilidade. Um exemplo é a Kings League, competição de futebol society idealizada por Gerard Piqué, que aposta em regras e dinâmicas inspiradas no universo dos jogos eletrônicos para tornar as partidas mais rápidas e imprevisíveis.
No Brasil, o torneio já reuniu grande público. A final da Copa do Mundo da Kings League foi realizada no Allianz Parque, em São Paulo, em janeiro deste ano, com 41.316 pessoas — apenas 141 a menos que o recorde do estádio, registrado em um clássico entre Palmeiras e Corinthians em 2023. Já em maio de 2025, a decisão da Kings League Brasil, também no local, contou com 40.027 torcedores, superando o público de seis dos dez jogos de uma rodada do Brasileirão disputada naquela mesma semana.
No universo dos games, o cenário brasileiro segue em expansão. O país é atualmente a segunda maior audiência digital de esportes do mundo, com 59 milhões de visitantes únicos em setembro de 2025, segundo a Comscore, e também ocupa a terceira posição global em horas jogadas em dispositivos móveis, conforme o relatório The State of Mobile Gaming 2025. A Pesquisa Game Brasil indica ainda que 80,1% dos brasileiros veem os games como sua principal forma de entretenimento.
“A mudança não é apenas de preferência, é de comportamento. A nova geração consome esporte de forma digital, fragmentada e altamente interativa. Os e-sports conseguem capturar essa atenção porque unem competição, entretenimento, criadores e comunidade em uma única experiência. Esse modelo dialoga diretamente com a forma como o público jovem se informa, se conecta e passa o tempo hoje. Por isso, o crescimento do interesse por campeonatos de jogos eletrônicos é estrutural, não pontual”, analisa Bruna Simões, CEO da Thunder Games, empresa brasileira de desenvolvimento de jogos e soluções gamificadas que transforma ideias em experiências interativas.
Ainda de acordo com a Pesquisa Game Brasil de 2025, 82% da população do país afirma consumir jogos digitais atualmente, o maior índice já registrado pelo levantamento. O estudo também aponta crescimento de 8,9 pontos percentuais em relação ao ano anterior — a maior alta já observada pela pesquisa.
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