A Federação Paulista de Futebol (FPF) vive um momento de forte turbulência. Enquanto o presidente da entidade, Reinaldo Carneiro Bastos, é alvo de um inquérito policial por suspeita de gestão fraudulenta e falsidade ideológica, vozes internas e externas clamam por uma mudança radical na estrutura da organização. Em entrevista ao programa Papo de Craque, da TMC, o ex-vice-presidente institucional da FPF, Wilson Marqueti Júnior, classificou o atual ciclo de gestão como “esgotado” e defendeu uma ruptura imediata.
O inquérito, aberto pelo 23º Distrito Policial de Perdizes a partir de informações do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), investiga uma evolução patrimonial de Reinaldo Carneiro Bastos descrita pelos promotores como “vultuosa e desprovida de lastro”. Os indícios sugerem práticas que podem configurar crimes contra a ordem tributária e lavagem de dinheiro.
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Marqueti Júnior, que é advogado e ocupou cargos na procuradoria do Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) antes de chegar à vice-presidência, afirmou ter recebido a notícia com surpresa, mas ressaltou que a situação reforça a necessidade de renovação. “Nós estamos trabalhando para uma ruptura. Após 42 anos de uma mesma linhagem de gestão, entendemos que esse ciclo chegou ao fim”, afirmou.
Crise nos clubes e o “abandono” do interior
Um dos pontos centrais da crítica de Marqueti Júnior diz respeito ao estado atual do futebol em São Paulo. Segundo ele, a pujança da Federação não se reflete na saúde dos seus filiados.
- Grandes clubes: Marqueti Júnior pontuou que gigantes como Corinthians, Santos e São Paulo atravessam crises financeiras e administrativas profundas.
- Futebol do interior: O diagnóstico para os times de fora da capital é ainda mais severo. “O interior está praticamente largado. Os clubes não revelam mais ninguém e sofrem com campeonatos curtíssimos”, criticou o ex-dirigente.
Manobra estatutária e falta de alternância
A entrevista também trouxe à tona questões sobre a transparência no processo eleitoral da FPF. Marqueti Júnior revelou que alterações no estatuto foram feitas de forma pouco clara para os clubes, permitindo mais uma reeleição para o atual mandato, o que contraria o espírito da Lei Geral do Esporte.
“O estatuto foi alterado permitindo mais uma recondução, o que é um absurdo. Criam-se ‘lombadas’ para inibir a entrada de novos candidatos”, denunciou. Ele destacou que as eleições costumam ocorrer com chapa única, dificultando qualquer tentativa de oposição. Além disso, Marqueti Júnior criticou o fato de a eleição ter sido marcada para o dia 25 de março, em meio às fases decisivas do Campeonato Paulista, quando os clubes estão focados em resultados de campo e classificação.
Ética e renúncia
Wilson Marqueti Júnior renunciou ao cargo de vice-presidente em setembro do ano passado por discordar das diretrizes da atual gestão. Durante a entrevista, ele questionou o papel das Comissões de Ética da FPF e da CBF diante das investigações patrimoniais. “A Federação pertence aos clubes, não pode ter um dono. Numa democracia, a variação no poder é o que há de mais saudável”, concluiu.
Leia mais: Polícia Civil investiga presidente da FPF por gestão fraudulenta
Enquanto a Polícia Civil segue com as diligências para confrontar os dados financeiros de Reinaldo Carneiro Bastos, a FPF se prepara para a eleição de março. O atual presidente, que busca seu quarto mandato, nega conhecimento sobre o inquérito e afirma nunca ter sido notificado.
