O empresário Fabiano Zettel é cotista final de um fundo de investimentos que manteve sociedade com o PlatôBR e o Brazil Journal. A detenção de Zettel ocorreu em 4 de março durante a terceira fase da Operação Compliance Zero. Seu cunhado, o banqueiro Daniel Vorcaro, também foi preso na mesma operação. A informação é do portal Investnews.
As parcerias comerciais com os dois veículos de comunicação brasileiros vigoraram entre 2024 e os primeiros meses de 2025. O PlatôBR cobre bastidores políticos. O Brazil Journal é dedicado a economia e mercado financeiro.
A Polícia Federal investiga irregularidades relacionadas ao Banco Master. A operação apura possíveis tentativas de controle do noticiário sobre as atividades da instituição financeira.
Flávio Carneiro, administrador e proprietário do PlatôBR, negou interferência editorial por parte do empresário nas publicações do veículo. O Brazil Journal não apresentou posicionamento oficial sobre o assunto.
Estrutura de fundos conecta empresário aos veículos
A ligação entre Zettel e os veículos de comunicação se estabelece através de uma cadeia de fundos de investimento. O Fundo Leal tem Zettel como único cotista. Este mesmo fundo participou da aquisição de parte da participação do ministro do Supremo Tribunal Federal Dias Toffoli e seus irmãos no resort Tayayá.
O Fundo Leal atua como cotista único do fundo Duke. Este manteve sociedade com Flávio Carneiro e com o engenheiro Kléber Tolezani na empresa Foone Serviços. A Foone desempenhou papel central nas conexões com os veículos jornalísticos.
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Informações da Comissão de Valores Mobiliários mostram que Zettel desembolsou R$ 4 mil para se tornar sócio da Foone. A Foone estabeleceu parceria com a Globalphii Mídias Virtuais, razão social do Brazil Journal, através da criação da BJ Conteúdo em fevereiro de 2024.
Kléber Tolezani atuou brevemente como administrador da Foone. Ele explicou o propósito da empresa: “A BJ Conteúdo é uma empresa que tem como objetivo a criação de novos projetos digitais unindo a expertise da Foone em tecnologia e do Brazil Journal em conteúdo”.
A BJ Conteúdo distribuiu R$ 2,1 milhões aos seus acionistas no final de 2024. Naquele momento, o quadro societário incluía a Foone, a Globalphii e quatro funcionários do Brazil Journal. Duas jornalistas estavam entre os funcionários. Geraldo Samor figura como sócio-administrador da Globalphii.
A sociedade entre a BJ Conteúdo e a Foone foi encerrada em março de 2025. A Foone Serviços, representada por Tolezani, registrou a criação do PlatôBR na Junta Comercial de São Paulo em outubro de 2024. Os documentos oficiais demonstram que a empresa se retirou formalmente do site de notícias em fevereiro de 2025.
Cobertura sobre Vorcaro começou após primeira prisão
Daniel Vorcaro e o Banco Master passaram a movimentar o noticiário desde meados de 2025. As negociações sobre fusão com o BRB geraram repercussão. A maior parte das publicações do PlatôBR sobre os dois teve início a partir de 18 de novembro. A prisão de Vorcaro ocorrida no dia anterior foi divulgada naquela data.
Busca no site pelo termo Master revela apenas uma reportagem sobre as polêmicas envolvendo os negócios do banco antes da primeira detenção de Vorcaro. O material consistia em entrevista com Paulo Henrique Costa, então presidente do BRB. Ele defendia o negócio entre as instituições.
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Flávio Carneiro é proprietário e administrador do PlatôBR. Ele também é sócio da Foone. Carneiro afirmou que o cunhado de Vorcaro nunca exerceu interferência editorial nos sites. O empresário declarou que Zettel não realizou aportes financeiros.
Carneiro explicou que o objetivo da Foone consistia em oferecer soluções tecnológicas aos sites de jornalismo. O modelo denominado tech for equity prevê prestação de serviços em troca de participação acionária nos sites. A iniciativa não teria prosperado devido a mudanças no mercado e na Lei Geral de Proteção de Dados. O plano previa que a Foone oferecesse aos sites serviços como sistema de gerenciamento de conteúdo e publicação. A empresa também forneceria gestão de data lake e produção de conteúdo audiovisual.
“Editorialmente esses produtos [sites] não estavam conectados à Foone. É como se a AWS [plataforma da Amazon de computação em nuvem e hospedagem de sites], que presta serviço hoje para o Platô como host, ou o Google, tivesse interferência editorial em cima deles. Isso é uma bobagem”, declarou Carneiro.
“Fui sócio do Duke [fundo abaixo do Leal, de Zettel]? Fui. Para fazer um projeto de tecnologia que, infelizmente, não deu certo. Mas eles não fizeram investimento nenhum”, acrescentou.
Carneiro é empresário mineiro que atua no setor de mídia. Ele já manteve sociedade no jornal Hoje em Dia. Sua família detém o Grupo Bel. O grupo possui rádios e uma afiliada da TV Record no interior de Minas Gerais.
O empresário foi citado na delação de Joesley Batista, da JBS, na Operação Lava Jato. Ele apareceu como um dos intermediários da suposta propina paga ao deputado Aécio Neves (PSDB). Todas as acusações envolvendo o deputado federal foram arquivadas.
Em outra operação, o Leal adquiriu a participação de Toffoli e seus irmãos no resort Tayayá. A transação ocorreu por meio de outro fundo do qual era cotista, o Arleen.
Brazil Journal recebeu críticas sobre ausência de cobertura
O Brazil Journal enfrentou críticas nas redes sociais no final de 2025. A ausência de cobertura sobre a prisão de Vorcaro e a liquidação do Banco Master gerou questionamentos. Em novembro daquele ano, Samor publicou texto defendendo o veículo após a primeira fase da Operação Compliance Zero.
O fundador do Brazil Journal afirmou: “Associar nossa ausência de cobertura a qualquer tipo de vínculo com o Banco Master é leviano e beira a desonestidade […] Se tivermos algo a agregar à cobertura deste e de outros escândalos em gestação, vamos fazê-lo”.
O Brazil Journal noticiou tanto a segunda fase da Operação Compliance Zero quanto a terceira fase. A segunda fase foi deflagrada em janeiro de 2026. A terceira ocorreu em 4 de março. Na cobertura mais recente, o site publicou reportagem com o título “A ‘milícia privada’ de Daniel Vorcaro”.
Mensagens mostram tentativas de controlar noticiário
Documentos apreendidos pela Polícia Federal no celular de Daniel Vorcaro mostram que o banqueiro monitorava ativamente a cobertura da imprensa sobre suas atividades. As mensagens foram obtidas durante investigações que resultaram em operações policiais contra o proprietário do Banco Master.
Os registros incluem diálogos entre Vorcaro e pessoas de sua confiança sobre estratégias para influenciar o noticiário. Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão é identificado como operador de Vorcaro. Ele enviou mensagem ao banqueiro informando ações para controlar a narrativa na mídia.
“Estamos em cima de todos os links negativos vamos derrubar todos e vamos soltar [notícias] positivas”, escreveu Mourão. O conteúdo das conversas indica esforços coordenados para remover publicações desfavoráveis. As mensagens também revelam promoção de matérias positivas sobre o empresário.
As mensagens revelam que Vorcaro manifestou intenção de perseguir fisicamente o jornalista Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo. O banqueiro escreveu que pretendia colocar pessoas para seguir o repórter. “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”, afirmou Vorcaro na conversa.
Investigação aponta pagamentos a site de notícias
A representação da Polícia Federal que fundamentou a operação deflagrada na quarta-feira da semana passada está sob sigilo judicial. O documento menciona o site O Bastidor e seu diretor, o jornalista Diego Escosteguy. A investigação aponta que o veículo e o profissional teriam recebido recursos financeiros de Vorcaro. Os pagamentos teriam como objetivo publicar conteúdo favorável ao banqueiro.
Diego Escosteguy divulgou nota após as informações da Polícia Federal virem a público. O jornalista afirmou que sua relação com Vorcaro “foi estritamente profissional, no âmbito da atividade jornalística, caracterizando-se como relação de fonte — prática legítima, comum e indispensável ao exercício da imprensa”.
Escosteguy entrou em contato com o Estadão após a publicação da reportagem. O diretor do O Bastidor considera “falsa, absurda e irresponsável” a afirmação de que ele e o veículo “receberiam dinheiro para publicar informações de interesse de Vorcaro”.
A Polícia Federal localizou mensagens adicionais no aparelho celular de Vorcaro com referências a transações financeiras envolvendo mídia. Um operador do banqueiro menciona nas conversas pagamentos ao “DCM e dois editores”. A sigla aparece sem identificação completa nos diálogos apreendidos pelos investigadores.
O Diário do Centro do Mundo se manifestou sobre a menção encontrada nas mensagens. O veículo negou que a sigla seja referência ao portal de notícias. A publicação afirmou que não recebeu “recursos, pagamentos ou qualquer benefício” dos investigados na operação policial.
As mensagens integram o conjunto de provas reunidas pela Polícia Federal nas investigações sobre Daniel Vorcaro. O material demonstra articulação para influenciar a cobertura jornalística sobre o banqueiro e suas empresas. Os diálogos revelam estratégias que vão desde tentativas de controle de conteúdo até ameaças diretas contra profissionais da imprensa. Os jornalistas realizavam reportagens sobre o empresário.




