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Especialista em inovação e economia criativa. Em sua coluna, explora as transformações da creator economy, novos formatos de mídia e as estratégias comerciais que estão moldando o futuro da comunicação digital.

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A corrida dos microdramas e as rachaduras do modelo de negócio

Campanhas agressivas de aquisição elevam o custo por usuário e alimentam a rotatividade. Além da fragilidade financeira, cresce outra dúvida: essas plataformas estão construindo fandom ou apenas otimizando atenção descartável?

Por Eduardo Mendes | Atualizado em
(Imagem: montagem Deadline)

Google e Range Media se uniram para lançar a 100 ZEROS e atrair produtores de Hollywood para a corrida pelos microdramas. Na semana passada, a nova empresa anunciou uma lista de produções roteirizadas e não roteirizadas em parceria com os criadores de The Bachelor e American Idol. O objetivo é produzir histórias curtas que estrearão no aplicativo Google TV.

A estratégia prevê lançar os projetos primeiro no aplicativo Google TV em celulares Android e, depois, distribuí-los em outras plataformas.

No Brasil, o Grupo Abril anunciou no início do mês o lançamento do Pop! Pop! Pop!, uma plataforma de streaming dedicada exclusivamente a microdramas. O aplicativo aposta em novelas curtas com episódios entre 90 segundos e três minutos, produzidas integralmente em formato vertical para consumo em smartphones.

As iniciativas reforçam o que Hernan Lopez descreveu recentemente: a indústria parece estar “descobrindo” os microdramas como um “novo continente”.

Em fevereiro, mostrei aqui como esse mercado já equivale a alguns segmentos de nicho do streaming tradicional e por que se tornou uma indústria global que expõe uma nova assimetria do vídeo digital.

Mas há buracos em meio a esse boom que sugerem algo menos sólido do que parece.

Recentemente, Evan Shapiro foi taxativo ao afirmar que o modelo de negócios dos microdramas é uma “grande mentira”.

Segundo ele ouviu de diversas fontes, a ReelShort (um dos unicórnios do setor ) gerou US$ 1,3 bilhão em receita principalmente por meio de compras dentro do aplicativo para desbloquear episódios adicionais. O problema é que a empresa gastou praticamente o mesmo valor para adquirir os usuários necessários para gerar essa receita.

“Não se trata de crescimento orgânico. É marketing de aquisição paga”, escreveu o analista.

O modelo depende de campanhas agressivas em redes sociais, com custos de aquisição de clientes cada vez maiores. A consequência é uma rotatividade permanente de usuários e prejuízos significativos. Na projeção de Shapiro, a empresa perdeu cerca de meio bilhão de dólares no último ano.

Esse padrão, diz ele, se repete em grande parte dos pioneiros do microdrama, um modelo originalmente desenvolvido para o mercado chinês.

Dados recém-divulgados pela Omdia mostram que usuários da ReelShort nos Estados Unidos passaram, em média, 35,7 minutos por dia assistindo ao aplicativo no quarto trimestre de 2025. No celular, isso superou o tempo gasto com Amazon Prime Video, Disney+ e Netflix.

O problema é o custo dessa atenção.

Shapiro lembra que todos querem escala, porém poucos têm bilhões de dólares para queimar enquanto tentam descobrir o modelo de negócios no caminho.

Foi assim com o TikTok, lembrou o analista. A ByteDance queimou bilhões antes de transformar o Musical.ly no plataforma viral de vídeos e depois gastou dezenas de bilhões adicionais em marketing de aquisição e remarketing até consolidar sua posição global.

Mesmo nesse caso, o modelo só funcionou em escala massiva e dentro de um ambiente altamente controlado.

A Omdia estima que a receita global de microdramas atingirá US$ 14 bilhões até o final de 2026, com os Estados Unidos representando metade da receita fora da China até o próximo ano.

Shapiro, por sua vez, alerta que até mesmo os números frequentemente citados sobre essa economia são inconsistentes.

“A maioria não entende o modelo de negócios precário que sustenta os maiores players do setor. Todos são atraídos pela promessa de conteúdo roteirizado barato e bilhões em receitas recorrentes. Mas poucos olham para o custo de aquisição de usuários e para os gastos constantes de remarketing necessários para manter a máquina funcionando.”

Além da sustentabilidade financeira, há outra questão levantada por Ben Woods que ajuda a explicar os limites desse formato.

A explosão dos microdramas expõe uma distinção imprescindível no entretenimento digital: atenção não é o mesmo que fandom.

Milhões de pessoas consomem microdramas verticais todos os dias. Mas, segundo Woods, o que essas plataformas realmente estão otimizando é atenção descartável, e não relacionamento duradouro com o público.

As histórias são projetadas para serem intercambiáveis. O espectador não precisa lembrar da série, apenas continuar rolando a tela.

“A narrativa vertical veio para ficar”, diz Woods. “Mas muitos desses aplicativos de microdramas vão falhar e acabar se consolidando.”

E o insider traça um contraste importante.

O modelo do YouTube prioriza o criador. A plataforma incentiva o público a retornar às mesmas personalidades, construir relacionamentos e formar comunidades em torno delas. A atenção existe, e surge como consequência da lealdade.

Na leitura mais ampla de Shapiro, “algo maior está acontecendo no vídeo vertical”. Participantes estão entrando no mercado, trazendo novos casos de uso e modelos de distribuição.

Com a transição gradual para formatos gratuitos, abertos e financiados por publicidade, ele acredita que 2026 pode marcar o momento em que a televisão vertical finalmente se consolide.

Antes disso, porém, o mercado precisa resolver um dilema externado por Woods: se o objetivo for monetizar fandom, o conteúdo curto precisa aprofundar universos narrativos e servir comunidades de fãs. Não copiar a lógica descartável dos aplicativos de microdrama.

“Entretenimento sempre foi um negócio de atenção. A questão agora é outra.Que tipo de atenção você está construindo?”, questionou.

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