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Especialista em inovação e economia criativa. Em sua coluna, explora as transformações da creator economy, novos formatos de mídia e as estratégias comerciais que estão moldando o futuro da comunicação digital.

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Copa de 2026 transformará propriedade intelectual no esporte e redefinirá jogo das plataformas

Além dos primeiros dez minutos no YouTube: como a FIFA, com o Content ID, transforma IP em ativo, abre seu arquivo histórico para criadores e muda a circulação de conteúdo nas redes sociais

Por Eduardo Mendes | Atualizado em
(Foto: Divulgação Blog YouTube)

A FIFA irá gerar um recorde de US$ 3,92 bilhões com os direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2026. Isso representa 36% da receita total da FIFA para o ciclo 2023/2026, estimada em US$ 11 bilhões.

Apesar de ser o menor valor em termos percentuais da arrecadação máxima, os contratos de mídia superam os números dos Mundiais de 2014, 2018 e 2022, que variaram entre US$ 2 e US$ 3 bilhões.

Os dados detalhados pelo Salary Leaks em outubro do ano passado ( a fonte mais fidedigna que encontrei) também incluem as 13 melhores ofertas de transmissões fechadas separadas por países.

O pacote brasileiro garantido por CazéTV, Globo, SBT/NSports é o sétimo da lista, com um total somado de US$ 150 milhões. O maior negócio veio da Fox Sports, avaliado em US$ 480 milhões, considerando um bônus de US$ 180 milhões pelo fato de os EUA serem sede.

Os 13 contratos listados representam 70% do gerado pela venda dos direitos. O portfólio global de transmissões da FIFA agora inclui mais de 190 territórios.

É importante destrinchar o dinheiro gerado pela mídia para entender por que a FIFA primeiro assegurou as receitas para depois construir uma estratégia direta de distribuição nas redes sociais para as emissoras.

Compactuo da análise direta de Nick Meacham ao repercutir o novo acordo da entidade com o YouTube, que entra ao lado do TikTok no hall de “plataformas preferidas.”

A principal novidade é a liberação de 10 minutos ao vivo de cada partida nos canais do YouTube, uma “primeira vez” histórica para a competição.

O “número selecionado” de partidas completas, porém, está indefinido, como observou Carlo De Marchis. O analista também chama atenção para um ponto: a colaboração com o YouTube inclui termos explícitos, enquanto que a parceria com o TikTok refere-se a “partes das partidas” sem definir o que isso significa.

Entregar novas possibilidades de construção de audiência para os detentores de direitos por meio de uma estratégia híbrida de distribuição é entender, nas palavras de Jean Baptiste Alliot, que plataformas como o YouTube não competem com as emissoras tradicionais, mas coexistem como ecossistemas paralelos, exigindo conteúdo e parcerias próprias.

Durante o podcast StreamTime Sports, que foi ao ar na semana passada, Rollo Gold, diretor global do TikTok, revelou a Meacham que durante o Mundial de Clubes realizado no ano passado, cerca de 4 mil postagens geraram 5 bilhões de visualizações e mais de meio milhão de usuários foram direcionados para o aplicativo da DAZN, detentora dos direitos do torneio.

Embora o alcance e o canal de aquisição sejam aspectos óbvios nessas colaborações, o verdadeiro foco do acordo FIFA-YouTube deve ser mirado para o ângulo da proteção de propriedade intelectual, como bem observou De Marchis.

Content ID como linha de defesa

O YouTube opera o Content ID, um sistema automatizado de impressão digital que permite aos detentores de direitos enviar arquivos de referência. Como explicou De Marchis, quando qualquer usuário posta um vídeo contendo material protegido, o sistema detecta automaticamente e oferece três opções: bloquear o vídeo, rastrear sua visualização ou monetizá-lo com anúncios.

De acordo com a documentação do YouTube, os detentores de direitos devem garantir que possuem “direitos exclusivos sobre o material” nos territórios onde reivindicam a propriedade.

Para a FIFA, isso significa que, uma vez que as imagens da partida são registradas no Content ID, clipes não autorizados são facilmente identificados e ações podem ser tomadas.

“O sistema opera em grande escala, o que é crucial quando se consideram os 104 jogos em 39 dias da Copa do Mundo”.

Na visão de De Marchis, o acordo com o YouTube amplifica essa proteção de duas maneiras. Primeiro, ele cria uma oferta oficial de conteúdo. Quando os parceiros de mídia postam melhores momentos e imagens de bastidores logo após a partida, eles preenchem o espaço normalmente ocupado por contas piratas. Em segundo lugar, o acordo formaliza a coordenação entre FIFA e YouTube, garantindo maior eficiência na detecção e aplicação de direitos autorais durante o evento.

Meacham acredita que, com essa abordagem de plataforma preferencial, a FIFA alcançará números pós-evento recordes. O “alcance” dos clipes poderá, inclusive, “ultrapassar a população mundial.”

No TikTok, o mecanismo é diferente. De acordo com De Marchis, ele não possui um sistema equivalente ao Content ID, mas o acordo com a FIFA compromete explicitamente a plataforma a implementar políticas antipirataria para proteger a propriedade intelectual. Por enquanto, os detalhes de como isso será operacionalizado durante o torneio ainda não foram revelados.

De Marchis lembra que a Copa do Mundo de 2022 no Catar ofereceu uma prévia do problema.

Clipes vazaram amplamente nas plataformas sociais, e um incidente notável envolveu o canal oficial da FIFA no YouTube, que foi notificado automaticamente por um conteúdo de direitos autorais pertencente à TMG, empresa contratada pela FIFA para monitorar suas transmissões. Esse episódio ilustra o poder e a complexidade da aplicação de direitos autorais em larga escala.

Nas palavras de De Marchis, os acordos de “Plataforma Preferencial” são, em parte, a resposta da FIFA a esse desafio.

O clipe vai de ameaça a ativo

Há cinco anos, o YouTube lançava os clipes. Na época, a reação foi morna: criadores gostaram do controle, mas espectadores pouco adotaram. Na Twitch, ao contrário, clipes sempre foram intrínsecos à cultura.

Em um artigo do ano passado, destaquei como o controle da narrativa se tornou um campo crucial para plataformas de mídia, com criadores e fãs sendo parte fundamental da estratégia.

Na ocasião, De Marchis sugeriu que ligas esportivas poderiam adotar modelos que permitissem recortes de partidas, com restrições de tempo e territórios, além de marcas d’água para proteger a propriedade intelectual.

A colaboração entre FIFA e YouTube representa uma mudança importante, em um momento em que distribuição e remix da propriedade intelectual através de criadores e fãs se tornaram parte essencial do modelo de negócio ( tema sobre o qual tenho me aprofundado nos últimos dois anos).

A FIFA anunciou que terá “um grupo global de criadores com acesso sem precedentes à Copa do Mundo”, embora o que isso signifique em termos operacionais ainda não esteja claro. O comunicado também reforça que criadores terão acesso ao Arquivo Digital da FIFA antes do torneio dentro do próprio canal da entidade no YouTube.

A parte do arquivo é separada do que os Parceiros de Mídia vão fazer. Ele vai para o canal oficial da FIFA no YouTube. É um compromisso direto da entidade com a plataforma, como observou De Marchis.

São movimentos que reforçam a consolidação de um novo paradigma, justificando por que o controle sobre os conteúdos e a narrativa se tornam ainda mais relevantes.

Relatório da Bain & Co do ano passado já alertava sobre o dilema: “possuir o consumidor, possuir o IP ou não possuir nada”. Em um mercado de atenção fragmentada, controlar a narrativa que ressoa com o público é cada vez mais central.

Em julho de 2024, contei como o momento mais viral da Euro 2024 foi derrubado. Vídeos da comemoração da vitória da Inglaterra embalada por “Mr Brightside” e registrados durante show do The Killers foram retirados por determinação da UEFA poucas horas após a classificação para a final.

Na ocasião, discuti por que as ligas não conseguiam se separar das plataformas sociais e, portanto, permaneciam presas, direcionando bilhões de visualizações e dólares para as grandes empresas de tecnologia, ao mesmo tempo em que mal impactam suas próprias receitas.

Para desbloquear valor significativo dos destaques e outros conteúdos curtos, as entidades precisariam negociar acordos privilegiados com as plataformas sociais ou desenvolver seus próprios canais.

Pouco menos de dois anos depois, esse momento parece ter chegado.

Como bem colocaram Paola Marinone e Bengü Atamer, a FIFA está vendendo um ecossistema de teasers de 10 minutos, curtas de 60 segundos, documentários liderados por criadores e mergulhos profundos de arquivo.

Em um ambiente em que a propriedade intelectual circula, é remixada e monetizada em escala, os clipes se tornaram um novo campo de batalha entre plataformas, criadores e detentores de direitos. A FIFA entendeu isso.

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