Ana Hikari expõe cicatrizes, afetos e sonhos de carreira no podcast ‘Imprevista’

Primeira protagonista asiática da TV Globo relembra o peso do racismo, abre o jogo sobre violência doméstica e explica por que escolheu o relacionamento aberto e à distância

Por Redação TMC | Atualizado em
Ana Hikari no podcast Imprevista
(Crédito: TMC)

Com apenas 30 anos, Ana Hikari carrega um currículo que muitos artistas veteranos almejam. Formada em Artes Cênicas pela USP, com passagem pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Portugal, ela fez história como a primeira protagonista asiática de uma novela da TV Globo, na aclamada temporada de Malhação: Viva a Diferença, vencedora do Emmy Internacional Kids. Mas, para além dos holofotes e da presença na cobiçada lista Forbes Under 30, a atriz se consolidou como uma voz ativa em debates urgentes.

Em entrevista ao programa Imprevista, Ana despiu-se das personagens para falar de arte, de suas raízes e de suas dores mais íntimas, mostrando as contradições e fortalezas de quem se recusa a ser silenciada por estereótipos.

O mito da democracia racial e a herança familiar

Filha de um professor universitário negro e de uma mulher de ascendência japonesa, Ana cresceu convivendo com os abismos raciais do Brasil. Durante o episódio, ela relembrou os questionamentos dolorosos e constantes que ouvia na infância, com pessoas duvidando do parentesco com seu pai.

“O Brasil vive esse mito da democracia racial. Isso cria nas pessoas uma ausência de debate”, pontuou. O despertar para a própria identidade como uma mulher racializada (amarela) aconteceu aos 18 anos, no movimento estudantil da USP. Segundo a atriz, assumir as rédeas da própria narrativa foi uma estratégia de sobrevivência no audiovisual. “Se eu deixasse a narrativa de quem sou eu ser dominada pela hegemonia branca, eu nunca chegaria em personagens fora do estereótipo”, refletiu.

Apesar da clareza e da força de seus posicionamentos, Ana confessou o desgaste de ser uma figura pública sempre cobrada por militância: “Às vezes é pressão mesmo. De verdade, eu queria só ser atriz. Eu queria só viver minha vida e ir para a praia, que é um grande privilégio que pessoas brancas têm e muitas vezes não pensam sobre isso.”

“Tenho medo de morrer”: o trauma da violência doméstica

O momento mais denso da entrevista ocorreu quando o assunto se voltou para o ser mulher no Brasil de hoje. Ana relatou, com crueza, a exaustão e o medo constante gerados pela escalada do feminicídio, revelando sua própria experiência como vítima de violência doméstica.

“Eu tenho uma denúncia contra o meu ex, tenho uma medida protetiva. Eu vi denúncias nessas últimas semanas de mulheres que tinham medida protetiva e morreram. Eu tenho medo de morrer. Não tenho medo da morte, mas de quem pode me matar”, desabafou.

A atriz detalhou a noite em que foi agredida, ficando da 1h às 6h da manhã fazendo compressas de gelo e se culpando pelo ocorrido, até conseguir ajuda de amigas e de seu pai para ir à Delegacia da Mulher e ao IML. Aproveitando o espaço no podcast, Ana mandou um recado direto aos homens sobre a falta de inteligência emocional masculina: “Por que vocês não aprendem a elaborar o que sentem? Fofoquem com os amigos! É através disso que vocês vão conseguir elaborar essas coisas que estão dentro de vocês e que, quando não conseguem, explodem socando uma parede ou socando uma mulher.”

Amor livre e a desconstrução da família tradicional

Na contramão das convenções, Ana Hikari revelou uma visão muito particular e pragmática sobre o futuro e o amor. A atriz, que se declara bissexual, rejeita a ideia de família tradicional e afirma que sua verdadeira família são seus amigos e laços de afeto diários.

Questionada sobre relacionamentos amorosos, a artista foi categórica ao defender o formato aberto e à distância. “A melhor coisa que tem num relacionamento, para mim, é ser à distância e aberto. Eu gosto de ter meu respiro, de ter o meu espaço para eu ser eu”, afirmou.

Preparada para as incertezas da vida, ela contou ainda que decidiu congelar seus óvulos aos 31 anos. Hoje, não deseja ser mãe, mas garante que “se a Ana do futuro quiser, ela estará lá contemplada pela Ana do passado.”

Exausta, mas longe de ser apática, a atriz agora planeja suas próximas cenas longe das câmeras: tirar merecidas férias em Maragogi e embarcar para os Estados Unidos ou para a França para estudar atuação. Um passo natural para quem, desde os oito anos de idade, quando pisou no palco do Theatro Municipal de São Paulo pela primeira vez, decidiu que não aceitaria papéis menores na própria vida.

Assista a entrevista no YouTube ou em sua plataforma de podcasts favorita.

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