A recente declaração do atacante Neymar após a vitória do Santos sobre o Remo trouxe à tona um termo comum no vocabulário brasileiro, mas que carrega uma carga histórica de preconceito. Ao dizer que o árbitro Sávio Pereira Sampaio “acordou meio de Chico”, o jogador utilizou um eufemismo popular para se referir ao ciclo menstrual feminino.
Embora pareça um apelido inofensivo para o nome Francisco, a origem da expressão é mais pejorativa. Ela deriva do português antigo e está ligada à palavra “chiqueiro”. Historicamente, “Chico” era um sinônimo para porco.
Dessa forma, “estar de Chico” significava, literalmente, estar em um “chiqueiro” ou estar “suja”. A expressão surgiu em uma época em que a menstruação era tratada como algo anti-higiênico, impuro ou um defeito biológico que tornava a mulher incapaz de manter o autocontrole.
Por que a fala é considerada misógina?
O uso da expressão, especialmente para criticar o comportamento de um homem (neste caso, o árbitro), é considerado misógino por dois motivos principais:
- Estigmatização biológica: reforça a ideia de que a menstruação — um processo fisiológico natural — é algo “sujo” ou depreciativo.
- Reducionismo comportamental: ao usar o termo para descrever alguém irritado ou autoritário, perpetua-se o estereótipo de que o humor e a competência das mulheres são totalmente reféns de seus hormônios. Quando um homem usa isso como insulto, ele sugere que o comportamento “errado” do outro é comparável a uma condição feminina, tida como inferior ou irracional.
No contexto esportivo, onde a luta contra o preconceito ganha cada vez mais espaço, o uso de termos que ridicularizam o universo feminino é visto como uma barreira para a inclusão. O que antes era tratado como “brincadeira de vestiário”, hoje é analisado sob a ótica do respeito e da atualização linguística, uma vez que o termo ignora a biologia feminina para transformá-la em sinônimo de mau humor.
Cartão amarelo
O desabafo de Neymar veio durante o jogo contra o Remo. Apesar de ter sido decisivo com duas assistências, o jogador recebeu o terceiro cartão amarelo por reclamação. Para o atleta, a punição foi “injusta” e fruto de um “estrelismo” do árbitro Sávio Pereira Sampaio.
A imprensa internacional destacou que esse tipo de comportamento reincidente coloca em xeque a liderança do jogador na seleção brasileira às vésperas da Copa de 2026.
O site francês L’Equipe explicou que o termo associava a biologia feminina a algo “sujo”, rotulando a atitude como “sequestro da temporada” por polêmicas extracampo. O Sport, da Espanha, e o Olé, da Argentina, focaram na contradição: o talento técnico de Neymar (duas assistências) foi ofuscado por uma “declaração repreensível”.




