Joana Treptow
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Âncora de destaque no jornalismo nacional, Joana Treptow, com seu estilo espontâneo, traz uma visão humana e técnica sobre os fatos que moldam o cotidiano. Versátil e dinâmica, sua cobertura abrange desde grandes crises até tendências sociais e culturais.

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Uma Páscoa que faz sentido para todos

Se as diferenças são inevitáveis, o que ainda pode ser comum a todos?

Por Joana Treptow | Atualizado em
uma família celebrando a páscoa
(Foto: Freepik)

Esse ano a Páscoa quase passou despercebida para mim. Não reparei muito nos ovos pendurados nos corredores dos supermercados como em outros anos. Só me dei conta de que o feriado estava chegando quando percebi a semana mais curta. Como não tenho fim de semana prolongado, nem filhos, não me programei para viagens e muito menos para comprar chocolate.

A única coisa que estava garantida era o almoço de domingo na casa da minha mãe. Esse não falha – bacalhau à brás, tradição desde a terrinha. Eu sou religiosa, mas não sigo o calendário cristão à risca.

E, quando me apercebi que já estávamos na Páscoa, me peguei pensando nessas datas simbólicas. Elas estão perdendo significado ou será que nós estamos perdendo o interesse nelas?

A Páscoa, para os cristãos, fala de renascimento, perdão e redenção. Para os judeus, liberdade. Muçulmanos e praticantes de religiões de matriz africana não celebram a data. E para quem não tem religião, o feriado é só isso: um feriado.

Mas fiquei pensando se existiria um significado possível que ultrapassasse a religião. Algo que ainda pudesse fazer sentido num mundo tão diverso e tão dividido.

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Por sorte, ou privilégio – ou talvez pelos dois – eu tenho a oportunidade de transformar o que penso com os meus próprios botões em questionamentos. Todas as sextas-feiras eu converso ao vivo com o filósofo Luiz Felipe Pondé no TMC 360. Às vezes levo notícias. Às vezes levo dúvidas. Às vezes levo coisas que eu mesma ainda não consegui organizar direito – quem pode se dar ao luxo de fazer perguntas a um filósofo?

Ontem levei um desses. Como alguém pode viver o simbolismo da Páscoa sem passar pela religião? A resposta passou menos pela fé e mais pelo comportamento. Mesmo que você não acredite em Jesus, existe algo na figura dele que continua seduzindo: a ideia – que hoje parece até radical – de se colocar no lugar do outro. De entender que as pessoas sofrem. E que viver em sociedade exige, em algum nível, a disposição de sofrermos juntos.

Se simplificarmos assim a Paixão de Cristo conseguimos entender que, na medida em que normalizamos a intolerância, o ódio e o conflito – que estão por todo lado – , perdemos a capacidade de fazer um exercício que não exige esforço físico, não demanda tempo, só exige uma coisa: imaginação.

Se colocar no lugar do outro é um exercício que pode ser feito de qualquer lugar, a qualquer hora. Não nos tira nada. Só nos dá: flexibilidade, respeito, consideração.

Não podemos exigir que a empatia nasça com alguém como um sentimento espontâneo, mas ela pode ser praticada se houver vontade. Podemos começar tentando deixar de julgar de forma imediata. Discordar faz parte. Entender que o mundo vai nos frustrar também. Os outros não vão sempre validar o que pensamos, sentimos ou queremos. Acreditem, alguns segundos entre o impulso e a reação já podem ser um começo.

A gente vive um tempo em que todo o mundo parece muito disposto a reagir e pouco disposto a compreender. Um tempo em que as pessoas se acostumaram a reduzir as outras a uma opinião. Nos tornamos tão pequenos aos olhos dos outros que precisamos caber em rótulos. Em caixas que nos simplificam. E essas caixas estão cada vez menores, mais fragmentadas e separadas e distantes entre si.

Talvez por isso figuras como a de Jesus continuem atravessando o tempo, mesmo para quem não é cristão. Não apenas pelo milagre ou pela fé, mas pela ideia – quase impraticável hoje – de compaixão. A ideia de que ninguém sofre sozinho. A ideia de que viver em sociedade exige algum grau de generosidade.

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