Jamil Chade
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Nome de referência no jornalismo internacional, Jamil Chade é jornalista e escritor, com vasta experiência em coberturas globais. Como correspondente internacional, analisa as forças que regem a política mundial, com foco especial nas Nações Unidas e nos temas urgentes que definem as relações entre as grandes potências.

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Diplomacia do confronto: o que o Brasil pode esperar do governo Trump

Pelas regras da diplomacia global, a nomeação de um embaixador exige o consentimento formal do país anfitrião

Por Jamil Chade | Atualizado em
(FOTO: GAGE SKIDMORE/WIKI COMMONS)

A decisão do presidente Donald Trump de nomear Darren Beattie como seu enviado especial ao Brasil consolida uma afronta direta à diplomacia nacional, impondo às relações bilaterais uma figura ligada à supremacia branca que recentemente teve seu visto cancelado por mentir ao Itamaraty.

Ao contornar a necessidade de aprovação que um embaixador oficial exigiria, Washington instaura um clima de desconfiança e retaliação na relação entre as duas maiores nações do hemisfério ocidental.

A escolha do cargo de enviado, e não de embaixador, escancara a manobra política da Casa Branca. Pelas regras da diplomacia global, a nomeação de um embaixador exige o consentimento formal do país anfitrião.

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Fica evidente que o governo brasileiro jamais aprovaria as credenciais de um personagem com histórico misógino e envolvimento com grupos extremistas. Sem essa via tradicional, os Estados Unidos optaram por enviar um emissário, empurrando sua presença sem se submeter ao crivo soberano do Brasil.

Para dimensionar a gravidade da nomeação, é preciso resgatar a trajetória de Beattie. No primeiro mandato de Trump, ele ocupava a função estratégica de redator de discursos do presidente. Sua saída do cargo, no entanto, não ocorreu por divergências políticas, mas sim após a imprensa revelar sua participação em uma conferência de supremacistas brancos.

Após a demissão, ele continuou influente nos bastidores e fundou um site de notícias conhecido por comercializar produtos de teor político e disseminar teorias conspiratórias sobre fraudes eleitorais e sobre a invasão do Capitólio.

O atrito direto com o Brasil já teve seu primeiro e ruidoso capítulo poucas semanas atrás. Beattie solicitou um visto de entrada no país alegando oficialmente que participaria de uma conferência sobre minerais críticos.

A farsa caiu por terra quando se descobriu que seu verdadeiro objetivo era visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão. Diante da inverdade documentada no pedido oficial, o governo brasileiro cancelou o visto imediatamente.

Nos corredores da diplomacia, a leitura é de que o emissário guardou profundo ressentimento desse episódio, e o risco de retaliações nos próximos meses tornou-se uma ameaça real. O próprio portal de notícias pertencente a Beattie já publicou que ele teria sido o arquiteto de sanções e tarifas aplicadas contra o Brasil no passado.

O cenário que se desenha para o futuro próximo é alarmante. Teremos de conduzir relações estratégicas com uma administração que instrumentaliza inverdades e adota o confronto como regra de convivência. Quando o enviado designado para construir pontes é o mesmo que desrespeita protocolos e flerta com o radicalismo, o único prognóstico possível é o de uma relação bilateral pautada pela instabilidade.

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