Do glamour ao algoritmo: o choque geracional em “O Diabo Veste Prada 2”

Sequência atualiza a história ao retratar a crise da imprensa, o avanço das redes sociais e a mudança nas relações de trabalho

Por Redação TMC | Atualizado em
Kenneth Branagh, Meryl Streep, Anne Hathaway, Stanley Tucci, Caleb Hearon, Simone Ashley, Emily Blunt e David Frankel participam da estreia europeia de “O Diabo Veste Prada 2”, em Londres, Reino Unido
(Foto: Jack Taylor/Reuters)

Duas décadas separam o lançamento de O Diabo Veste Prada (2006) e sua continuação, O Diabo Veste Prada 2 (2026). Nesse intervalo, mudaram profundamente o comportamento profissional, o consumo de informação e o próprio papel da moda na cultura — e é justamente essa transformação geracional que sustenta o novo filme.

Preview in new tab

No original, a história orbitava um mundo ainda dominado por revistas impressas, hierarquias rígidas e chefes autoritários, simbolizados por Miranda Priestly (Meryl Streep). A redação da Runway era o núcleo de poder: determinava modas, influenciava vontades e servia como trampolim para aspirações profissionais. Andy Sachs (Anne Hathaway) representava a jovem profissional que precisava se adaptar — muitas vezes à custa da própria identidade — para sobreviver nesse ambiente.

Siga o canal da TMC no WhatsApp e receba as últimas notícias

Já na sequência, o ponto de partida é outro: o colapso desse modelo. Andy, agora uma jornalista reconhecida, é demitida por mensagem de texto, junto com colegas, em meio à reformulação de um jornal. O episódio sintetiza uma mudança central: o trabalho se tornou mais instável, digital e impessoal, refletindo a crise do jornalismo tradicional.

Ao retornar à Runway, Andy encontra um cenário transformado. A revista impressa perdeu relevância, restando como produto de nicho. O poder antes concentrado nas editoras migrou para outros atores — como influenciadores digitais e bilionários da tecnologia. A própria lógica de consumo mudou:
em vez de editoriais elaborados e contemplativos, predominam conteúdos rápidos, descartáveis e guiados por algoritmos.

Essa transição também altera as relações de poder. Miranda, antes retratada quase como uma vilã caricatural, surge agora de forma mais complexa. Ela deixa de ser apenas a “chefe tirana” para encarnar uma profissional da “velha guarda” tentando sobreviver ao fim de uma era. Sua rigidez perde espaço para uma certa consciência das mudanças — inclusive no discurso, como ao evitar termos considerados inadequados nas novas sensibilidades sociais.

Ao mesmo tempo, a nova geração aparece sob outras tensões. Se antes o conflito era se submeter ou não a um sistema opressor, agora o dilema é diferente: como construir relevância em um ambiente fragmentado, dominado por redes sociais, precarização do trabalho e dependência de grandes investidores.

O filme também evidencia uma mudança simbólica importante: a moda deixa de ser tratada apenas como futilidade e passa a ser vista com certa melancolia, como expressão cultural em risco. No longa de 2006, havia ironia e distanciamento; em 2026, há um tom mais reflexivo, quase nostálgico, diante da perda de influência das revistas e da superficialidade acelerada do consumo digital.

Outro contraste geracional aparece no ambiente de trabalho. A redação se torna mais diversa e menos tolerante a abusos explícitos, mas isso não significa necessariamente melhores condições. A pressão continua, agora mediada por métricas, crises de reputação e instabilidade econômica.

Por fim, a introdução de temas como inteligência artificial, crise da imprensa e influência de magnatas reforça a ideia de que o centro de poder saiu das redações e passou para o ecossistema tecnológico e financeiro.

Em síntese, O Diabo Veste Prada 2 transforma o que antes era uma sátira sobre ambição e vaidade em uma reflexão sobre transformação histórica. Se o primeiro filme mostrava como entrar no sistema, o segundo questiona como sobreviver quando o próprio sistema deixa de existir.

Veja o trailer do filme:

Leia mais: Cinebiografia de Michael Jackson chega aos cinemas com expectativa recorde

Ao vivo
São Paulo
Ouça a TMC pelo Brasil
  • 100,1FM São Paulo
  • 101,3FM Rio de Janeiro
  • 100,3FM Curitiba
  • 88,7FM Belo Horizonte
  • 92,7FM Recife
  • 100,1FM Brasília
Notícias que importam para você
Copyright © 2026 CNPJ: 44.060.192/0001-05