Na segunda-feira (25/05), os últimos 14 pacientes de longa permanência deixaram o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena. A saída encerrou, de vez, a era manicomial de uma instituição que funcionou por 115 anos em Minas Gerais. Eles foram encaminhados a uma residência terapêutica preparada para recebê-los.
O grupo tinha, em média, 73 anos de idade. O tempo médio de internação chegava a 49 anos — o que significa que alguns entraram ainda crianças e passaram a vida inteira dentro do hospital.
Uma história marcada por tragédia
A instituição nasceu em 1903 como Sanatório de Barbacena, voltado ao tratamento de tuberculose. Em 1911, tornou-se o primeiro hospital psiquiátrico público do estado. Ao longo do século XX, virou um dos maiores manicômios do país.
No auge, o complexo abrigava até 3.500 pacientes ao mesmo tempo. Entre 1942 e 2020, cerca de 40 mil pessoas passaram pela instituição. Mais de 24 mil não saíram com vida.
A dimensão do sofrimento vivido ali foi documentada por jornalistas e escritores, entre eles Daniel Galera. O Museu da Loucura, instalado no próprio complexo, preserva essa memória.
Desinstitucionalização gradual
O processo de retirada dos pacientes de longa permanência começou em 2019, pelo Governo de Minas. Antes da transferência final de segunda-feira, outros 68 pacientes já haviam recebido alta para Serviços Residenciais Terapêuticos.
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O enfermeiro Mário Antônio Resende, gerente de internação do complexo desde 2011, descreveu o momento como o fim de um ciclo. Segundo ele, o sentimento foi de alegria e gratidão, e toda a equipe ficou emocionada. Ele destacou que os pacientes passaram décadas internados e que a equipe conseguiu reinseri-los na sociedade com liberdade.
Resende também afirmou que os 14 pacientes foram bem cuidados e que, fora do ambiente hospitalar, vão continuar com acompanhamento especializado na residência terapêutica.
O que muda no complexo
O encerramento das internações de longa permanência não significa o fechamento do Complexo Hospitalar de Barbacena. A estrutura segue em funcionamento, agora com foco em serviços de alta complexidade.
O complexo mantém 90 leitos hospitalares, sendo 20 de UTI, além de 30 leitos psiquiátricos destinados a casos agudos — com permanência média de 21 dias. O ambulatório realiza cerca de mil consultas por mês.
A Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), responsável pela gestão, informou que o estado conta hoje com 453 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) — unidades de saúde mental que atendem pacientes em regime aberto, sem internação. Nos últimos anos, o Governo de Minas investiu mais de R$ 718 milhões em saúde mental. Para 2025, o aporte previsto é de R$ 100 milhões.
O diretor do complexo, Claudinei Emídio Campos, e a presidente da Fhemig, Renata Dias, acompanharam a transferência final ao lado do secretário de Saúde, Fábio Baccheretti.




