Distribuidoras veem nova escalada de preços do diesel no 2º semestre

Dependência do diesel russo e fim dos estoques pré-conflito no Oriente Médio pressionam preços a partir de julho

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Funcionário da Petrobras deposita petróleo num recipiente
(Foto: Roberto Rosa/Agência Petrobras)

O preço do diesel no Brasil deve subir no segundo semestre. Distribuidoras e analistas do setor apontam para um cenário de oferta mais apertada no mercado global — e o consumidor vai sentir no bolso, já que o combustível move caminhões, ônibus e máquinas agrícolas que abastecem o país.

A avaliação foi feita durante a Conferência Argus Rio Crude, realizada na semana passada no Rio de Janeiro. O evento reuniu executivos de empresas como Petrobras, Ipiranga, Vibra e Raízen, além de consultores internacionais.

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O conflito no Oriente Médio, que já dura quase três meses, não causou desabastecimento imediato porque havia grandes volumes de petróleo e combustível estocados. Mas esse colchão está acabando.

Amance Boutin, gerente de Desenvolvimento de Negócios da consultoria Argus, explicou que os estoques formados antes do conflito devem se esgotar no segundo semestre. Segundo ele, é provável que, nesse período, alguma ponta da demanda — seja no abastecimento rodoviário ou no aquecimento de inverno — precise ceder em consumo.

O segundo semestre também concentra maior demanda global por diesel. O hemisfério norte forma estoques para o inverno. No Brasil, o transporte das safras agrícolas acelera. Os dois movimentos ocorrem ao mesmo tempo.

Dependência do diesel russo

Desde meados de 2023, a Rússia domina o mercado brasileiro de diesel importado. Em abril, o Brasil trouxe 1,2 bilhão de litros do combustível — dos quais 1,1 bilhão de litros vieram de origem russa, o equivalente a cerca de 90% do total importado.

O problema é que essa oferta pode diminuir. Thiago Vetter, consultor de Gerenciamento de Risco da StoneX, alertou que os estoques russos já estão muito baixos. Ele lembrou que, no passado, o governo russo chegou a proibir exportações do combustível — especificamente em setembro e outubro — e avaliou que esse movimento pode se repetir. Além disso, a Rússia tem uma safra relevante a partir do meio do ano e um calendário mais intenso de paradas para manutenção em refinarias, o que reduz a produção disponível para exportação.

Milena Mansur, gerente sênior de trading da Ipiranga, disse que a preocupação maior está em julho e agosto, meses que tendem a ter menos oferta russa disponível. Para se antecipar, a Ipiranga dobrou o volume de cargas importadas em abril: passou de 150 mil para 300 mil metros cúbicos.

Segundo Mansur, o Brasil não deve ficar sem diesel. Mas, para redirecionar navios que estavam indo a outros destinos, o país terá de pagar um prêmio — ou seja, um valor extra — para garantir o abastecimento.

O preço do diesel nas refinarias da Petrobras está abaixo do custo de importação. Segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), a defasagem chegou a R$ 1,15 por litro — com o preço de importação em R$ 4,69 por litro e o preço da Petrobras em R$ 3,54 por litro.

Na prática, isso significa que importar diesel hoje é mais caro do que comprar da estatal. Se a pressão global de preços aumentar, essa diferença pode crescer ainda mais — e eventualmente forçar um reajuste nas bombas.

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) acompanha o cenário. Uma das alternativas em estudo pelo governo é elevar o teor de biodiesel na mistura do diesel B — o combustível vendido nos postos — para reduzir a dependência do produto importado e amortecer a alta de preços.

Petrobras admite retomada de importações

Angélica Laureano, diretora executiva de Logística, Comercialização e Mercados da Petrobras, afirmou na terça-feira (26/05) que, para abril e maio, a empresa não identificou necessidade de importar diesel. Mas reconheceu que, a partir de junho — quando começa a época da safra e a demanda cresce —, a importação provavelmente voltará a ser necessária.

A Petrobras ampliou a produção interna ao operar suas refinarias acima da capacidade máxima, o que reduziu a necessidade de importação no primeiro trimestre. Esse fôlego, porém, tem limite.

Rafael Valim, diretor de trading da Ream (Refinaria da Amazônia, do grupo ATEM), estimou que a defasagem de preços pode chegar a R$ 1,30 por litro no segundo semestre, com o mercado global mais apertado. Para o consumidor, isso se traduz em frete mais caro, passagens de ônibus mais altas e pressão sobre os preços de alimentos transportados pelo país.

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