Lançada pela Netflix em parceria com a produtora 02 Filmes, a minissérie “Brasil 70 – A Saga do Tri” tem cinco episódios e revisita os bastidores da campanha que levou a Seleção Brasileira ao tricampeonato mundial no México. A produção é estrelada por Rodrigo Santoro, no papel de João Saldanha, e combina dramatização com recriações digitais de partidas históricas, além de abordar o contexto político da ditadura militar durante o ciclo da Copa de 1970.
A série tem sido elogiada pela reconstituição de época, pela caracterização dos personagens e pela reprodução de momentos marcantes da campanha brasileira. No entanto, como acontece em obras inspiradas em fatos reais, alguns acontecimentos são retratados com fidelidade histórica, enquanto outros foram adaptados ou ampliados para dar mais ritmo à narrativa.
A seguir, veja o que é sustentado por registros históricos e o que foi transformado pela dramaturgia.
João Saldanha convenceu Pelé a não desistir da Seleção?
Fato. Após a eliminação na Copa de 1966, quando sofreu forte marcação e violência dos adversários, Pelé chegou a afirmar que não pretendia disputar outro Mundial. Quando assumiu a Seleção em 1969, João Saldanha trabalhou para convencer o craque a retornar ao projeto da Copa de 1970.
Relatos de biografias, entrevistas e memórias dos envolvidos apontam que Saldanha procurou Pelé e apresentou a ideia de montar uma equipe ofensiva, capaz de potencializar o futebol do camisa 10. O retorno do Rei foi fundamental para a campanha que terminaria com o tricampeonato. A cena da Vila Belmiro é uma licença poética, mas o “João Sem Medo” foi, sim, atrás do eterno camisa 10.
João Saldanha tinha birra com Pelé?
Fato. A relação entre os dois começou de forma positiva, mas se deteriorou nos meses que antecederam a Copa. Saldanha chegou a questionar publicamente a condição física de Pelé e levantou dúvidas sobre seu rendimento em jogos noturnos, alegando problemas de visão.
Não há consenso entre historiadores sobre se havia uma perseguição pessoal. O que é documentado é que o treinador passou a fazer críticas públicas ao principal jogador do país, criando um ambiente de tensão.
Pelé foi ameaçado de sequestro durante a Copa de 1970?
Fato. O contexto político da América Latina era turbulento, e havia preocupações reais com a segurança de Pelé durante o Mundial do México. O atacante recebeu proteção especial e viveu sob um esquema de vigilância mais rígido do que o restante da delegação.
A série retrata esse clima de preocupação, que tem base histórica.
Pelé fugiu do hotel da Seleção para escapar dos seguranças e treinar?
Exagero dramático. Pelé realmente se incomodava com as restrições impostas pelo esquema de segurança, mas não há registros de uma fuga cinematográfica como a apresentada na série.
O craque treinava normalmente com o grupo e era acompanhado por agentes responsáveis por sua proteção. A cena serve mais para ilustrar a sensação de confinamento vivida pelo jogador do que para reproduzir um fato real.
O presidente Emílio Garrastazu Médici pediu a convocação de Dadá Maravilha?
Fato. O então presidente da República manifestou publicamente sua preferência pela convocação do atacante Dadá Maravilha, destaque do Atlético-MG. O próprio jogador, anos depois, admitiu que a predileção de Médici foi determinante para sua ida ao México.
O episódio tornou-se um dos símbolos da tentativa de aproximação entre o regime militar e a Seleção Brasileira em um período em que o governo buscava associar-se ao sucesso do futebol.
João Saldanha respondeu que o presidente escalava o ministério e ele escalava o time?
Fato. A frase entrou para a história do futebol brasileiro. Questionado sobre a interferência de Médici na Seleção, Saldanha respondeu exatamente como mostrado na produção: “Eu e o presidente, ou o presidente e eu, temos muitas coisas em comum. Somos gaúchos. Somos gremistas. Gostamos de futebol. E nem eu escalo ministério, nem o presidente escala time. Você está vendo que nós nos entendemos muito bem”.
A declaração aumentou o desgaste entre o treinador e setores ligados ao governo e à Confederação Brasileira de Desportos (CBD).
Saldanha foi demitido porque contrariou Médici?
Em grande parte, sim, mas não foi o único motivo. A série simplifica um processo que foi mais complexo.
O conflito envolvendo Dadá Maravilha e a frase dirigida ao presidente tiveram peso importante na crise. No entanto, a demissão também ocorreu em meio a resultados questionados, conflitos com dirigentes, atritos internos e episódios envolvendo o temperamento explosivo do treinador.
Décadas depois, o próprio Saldanha afirmou que a pressão política existiu e contribuiu para sua saída.
Zagallo disse a Pelé: “Vocês vão ter que me engolir”?
Não. Essa é uma das principais distorções cronológicas da série.
A frase “Vocês vão ter que me engolir” foi dita por Zagallo apenas em 1997, após a conquista da Copa América pela Seleção Brasileira. O desabafo foi direcionado a críticos e jornalistas que questionavam seu trabalho, e não a Pelé.
Trata-se de um anacronismo, ou seja, a utilização de um elemento de outra época para reforçar uma característica do personagem.
Zagallo e João Saldanha tiveram uma rixa durante a Copa?
Os dois tinham diferenças de visão sobre futebol e trocaram críticas ao longo da carreira. Porém, a rivalidade não ocorreu nos moldes retratados durante a Copa.
Isso porque Saldanha foi demitido em março de 1970, cerca de três meses antes do início do Mundial. Quando a competição começou, Zagallo já era o treinador da Seleção e Saldanha acompanhava o torneio como jornalista.
Zagallo encontrou Saldanha e conversou com ele antes da semifinal?
Essa é mais uma licença poética da dramatização para criar um momento de impacto na tela. Na vida real, João Saldanha de fato estava no México durante a Copa do Mundo de 1970, mas trabalhando como jornalista e comentarista esportivo (ele cobriu o Mundial pela Rádio Nacional e pelo jornal “O Globo”). Sendo assim, ele e Zagallo frequentavam os mesmos estádios e centros de imprensa, e é bem provável que tenham se cruzado visualmente.
No entanto, essa ideia de um encontro fortuito na rua com uma conversa profunda ou conselhos antes de um jogo tão tenso quanto a semifinal contra o Uruguai é pura criação de roteiro. A relação entre os dois após a troca de comando era fria e distante. Zagallo estava em um nível extremo de concentração e blindagem com o elenco, e Saldanha, apesar de torcer pelo Brasil, mantinha sua postura crítica na imprensa. Não houve um “passar de bastão” amigável ou um diálogo de redenção nas ruas mexicanas.
Zagallo deu um “esporro” no intervalo da semifinal contra o Uruguai?
Fato. O Brasil saiu atrás do placar e viveu momentos de tensão diante do fantasma do Maracanazo de 1950. Mesmo com o empate ainda no primeiro tempo, o ambiente no vestiário era de preocupação.
Diversos testemunhos de jogadores indicam que Zagallo elevou o tom da cobrança no intervalo, exigindo mais atitude da equipe. Em um livro que escreveu sobre os bastidores do tri, o técnico também relatou o “esporro”. O Brasil voltou melhor para a etapa final e venceu por 3 a 1.
Veredito: mais fiel do que inventada
Apesar de algumas dramatizações, “Brasil 70 – A Saga do Tri” se apoia majoritariamente em acontecimentos reais. Os embates entre João Saldanha e o regime militar, as dúvidas sobre Pelé, a influência política na Seleção e a pressão sobre Zagallo são elementos amplamente documentados.
As principais licenças poéticas aparecem na forma como certos conflitos são condensados, em diálogos recriados para efeito dramático e em algumas cenas que exageram situações reais para aumentar a tensão narrativa.
O resultado é uma série que preserva os fatos centrais da história do tricampeonato, mas que, como toda obra de ficção baseada em eventos reais, mistura documentação histórica e recursos dramatúrgicos.
Veja o trailer de “Brasil 70 – A Saga do Tri”
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