Jamil Chade
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Nome de referência no jornalismo internacional, Jamil Chade é jornalista e escritor, com vasta experiência em coberturas globais. Como correspondente internacional, analisa as forças que regem a política mundial, com foco especial nas Nações Unidas e nos temas urgentes que definem as relações entre as grandes potências.

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Casa Branca fez dossiê contra árbitro brasileiro que expulsou jogador dos EUA

Cartão vermelho anulado após pressão de Donald Trump abala credibilidade da Fifa

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(Foto: Jonathan Ernst/Arquivo/Reuters)

Esta segunda-feira se mostra complexa para todos nós, mas ainda mais difícil para compreender o cenário que envolve o cartão vermelho aplicado pelo árbitro brasileiro Raphael Claus a um jogador da seleção dos Estados Unidos. Como os mais de 100 cartões distribuídos nesta Copa do Mundo, a decisão não deveria ser revogada; nenhuma outra passou por suspensão ou revisão externa, por mais polêmica que tenha sido.

Neste caso específico, a punição foi aplicada contra um dos principais atletas norte-americanos e validada pelo VAR. Ou seja, não houve arbitrariedade por parte do juiz brasileiro, mas sim uma constatação coletiva da equipe de arbitragem.

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O que aconteceu logo após a expulsão, contudo, é o que espanta. Bastidores apontam que a Casa Branca telefonou diretamente para a Fifa com um questionamento inédito: Quais são as regras para contestar um cartão vermelho e permitir que o nosso jogador retorne a campo na próxima partida?

Surpreendentemente, a consulta não partiu da Federação de Futebol dos Estados Unidos, mas diretamente da Casa Branca. Diante disso, Gianni Infantino — que enfrenta o conhecido desafio diplomático de gerir sua relação com Donald Trump — acabou acatando a sugestão de revisar a penalidade.

No último domingo, o cartão “desapareceu” por meio de uma manobra jurídica singular: a punição não foi formalmente anulada, mas ficou determinado que, se o atleta cometer outra falta grave nos próximos 12 meses, o cartão será computado. Como o torneio mundial dura apenas mais 15 dias, trata-se de uma decisão flagrantemente casuística.

Na Europa, a reação foi imediata e severa. A Uefa manifestou-se afirmando que a medida é “sem precedentes e perigosa para a integridade do futebol”. Se o Executivo norte-americano pode intervir diretamente na arbitragem, o questionamento central deixa de ser o cartão em si e passa a ser o limite desse poder de influência.

Leia mais: O que aguarda a Seleção Brasileira até a Copa do Mundo de 2030?

Essa ingerência traz duas consequências graves. A primeira é a insegurança para a Arbitragem: Como se comportarão os árbitros escalados para os jogos dos Estados Unidos a partir de agora? Qualquer decisão em campo poderá ser levada não apenas ao Comitê de Disciplina da Fifa, mas diretamente ao gabinete de Donald Trump.

A segunda é a eventual retaliação nos bastidores. Para fundamentar o pedido de revisão, a Casa Branca produziu um dossiê focado em antigas decisões polêmicas de Raphael Claus para descredibilizar o profissional brasileiro.

Embora o futebol registre interferências políticas autoritárias no passado — como a Itália de Mussolini em 1934 ou a Argentina de Videla em 1978 —, esta é a primeira vez no século XXI que assistimos a um episódio dessa magnitude em uma democracia contemporânea.

O princípio histórico de que política e esporte não se misturam foi completamente rasgado. Diante desse cenário, os próprios pilares institucionais e republicanos entram em xeque.

A gravidade do episódio é tamanha que até mesmo Joseph Blatter, ex-presidente da Fifa e histórico braço-direito de João Havelange, que estava afastado dos holofotes há anos, utilizou suas redes sociais para endossar as críticas, afirmando enfaticamente: “Isto passou de todos os limites”.

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