Se a história dessa Copa do Mundo fosse um roteiro de comédia encomendado aos integrantes do lendário grupo inglês Monty Python, talvez o roteiro fictício teria apresentado os mesmos semifinalistas que se enfrentarão hoje e amanhã por duas vagas na decisão.
Porque só mesmo o sarcástico e refinado humor inglês poderia imaginar entre os quatro finalistas justamente as quatro nações que por algum momento da história dominaram as controversas Ilhas Falkland. Mas o que poderia ser uma divertida obra de ficção nada mais é do que uma daquelas grandes ironias do destino que volta e meia aparecem no futebol.
Muito está se falando sobre o reencontro entre ingleses e argentinos, protagonistas da rápida guerra que humilhou a ditadura militar dos hermanos em 1982. Mas pouca gente sabe que França e Espanha, países que jogam nesta terça, em Dallas, também já tiveram seus olhos voltados para o arquipélago no sul do Atlântico.
Os franceses aliás foram os primeiros colonizadores do local, fundando um assentamento por lá em 1764. No ano seguinte, sem saber da presença francesa, a marinha inglesa se apoderou de outra ilha do arquipélago. Alguns estudiosos defendem a ideia de conflitos posteriores entre as duas nações. Outros explicam que a França não deu muita bola (trocadilho pertinente pro dia de hoje) pra nova “colônia”, transferindo a posse da mesma para a Espanha, em 1767.
Foi aí que se estabeleceu outro conflito, desta vez entre as marinhas espanhola e inglesa. A briga durou pouco, até porque provavelmente o território ultramarino não “empolgava” tanto os ingleses, que decidiram tirar o time de campo. Ou das ilhas. Economizariam com o fim do conflito e se dedicariam a questões politicas e territoriais mais importantes na América Central e África.
Mas aqui cabe uma ponderação. A mensagem dos ingleses à época foi clara aos espanhóis: “deixamos o território, mas não abrimos mão de reivindicá-lo”. Esse esboço de ameaça só sairia do papel quase 60 anos depois…
Em 1833, os ingleses voltaram a pensar naquele distante território, localizado quase 500 quilômetros a leste da Patagônia. Só que agora, não mais espanhol. Não na teoria, mas na prática, já que um novo país independente do “novo mundo”, ao conseguir se livrar do domínio espanhol, chegou a conclusão de que também poderia ter um arquipélago distante pra chamar de seu. E assim, aproveitando-se da quase nenhuma preocupação espanhola com a região, a Argentina tomou conta das ilhas. Que aliás já se chamavam Malvinas, numa adaptação dos espanhóis para o termo “Malouines”, nome dado originalmente pelos franceses, ainda em 1764.
A mudança de bandeira no arquipélago não foi empecilho para a poderosa esquadra britânica que rapidamente retomou o controle do local. E assim as ilhas que só foram argentinas de fato por cerca de cinco anos no século XVIII viraram Falklands e seguem assim desde então. A não ser por 74 dias de domínio argentino durante a constrangedora – e sangrenta – tentativa de retomada em 1982. “Big mistake”, como todos sabemos.
Ao contrário do que imaginava a cínica junta militar que governava o país sulamericano, a resposta de Margaret Thatcher foi contundente e centenas de jovens soldados argentinos perderam bestamente a vida.
É curioso notar, entretanto, que torcedores, ex-jogadores e jornalistas argentinos tenham usado o futebol como instrumento de vingança contra os britânicos, omitindo o detalhe mais importante do conflito. A tragédia só ocorreu porque os militares foram em busca de algo que não lhes pertencia. E pior, com o objetivo de conseguir apoio popular. Legitimar um regime inconstitucional e assassino era muito mais importante do que qualquer benefício estratégico ou econômico que as Malvinas poderiam gerar. Uma vergonha histórica. E que ao menos culminou com o fim imediato daquela ditadura.
Leia mais: França e Espanha voltam a se enfrentar em uma Copa do Mundo após 20 anos; relembre
Mas ainda assim Diego Maradona encarou o jogo de 1986 contra os ingleses como uma revanche. E transformou a desonestidade no lance do primeiro gol daquela partida em algo sagrado, alegando que a mão na bola foi na verdade “la mano de Dios”.
Se Deus tivesse a intenção de castigar alguém naquele 22 de junho de 86, as vítimas não seriam apenas os compatriotas da Dama de Ferro. Até porque violação de direitos humanos e mortes de civis, ítens presentes no nada invejável currículo do general Leopoldo Galtieri, são pecados tão ou mais pesados que supostos crimes de guerra.
Quarenta anos depois, cá estamos. A espera de um novo “Argentina x Inglaterra”. E de mais um “Espanha x França”. Com as quatro nações que talvez joguem o melhor futebol na atualidade. E que, esperamos, entreguem tudo que podem em campo, mas sem clima de guerra. “É só futebol”, já sentenciou Lionel Scalone. Totalmente sincero? Não ouso cravar. Elegante e pacificador? Sim, felizmente.
Copa do Mundo 2026: confira os jogos que serão transmitidos pela TMC
É hora de futebol e de decisão na TMC. E de mais um capítulo dessa história ser contado. Ah… pra quem a população das Malvinas, digo Falklands, vai torcer?? Se depender do resultado de um recente plebiscito feito no arquipélago (com resultado a favor da manutenção do domínio britânico por lá), mais de 95% dos torcedores estarão vibrando por Harry Kane e companhia!