Por que Argentina canta que Copa do Mundo de 1994 foi “roubada”? Entenda acusação que virou “vingança”

Grito da torcida adotado pela Albiceleste acusa Fifa de ter tirado Diego Maradona do Mundial conquistado pelo Brasil

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(Foto: Amanda Perobelli via Reuters)

A Argentina chega à semifinal da Copa do Mundo 2026 embalada por um canto da torcida abraçado pela seleção. O verso “pela última de Leo”, em referência à despedida de Lionel Messi dos Mundiais, viralizou nas redes, porém o grito de incentivo traz mais um sentimento: nos Estados Unidos, os argentinos querem “vingança” por Diego Maradona, pego no doping há 32 anos, no mesmo país-sede. Para os “hermanos”, a Copa do Mundo de 1994 foi “roubada”.

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E o que o Brasil, vencedor daquela edição, tem a ver com isso? O Tetra conquistado por Taffarel, Dunga, Bebeto, Romário e companhia não seria o alvo principal da provocação vizinha. O algoz brasileiro é outro: João Havelange (1916-2016), ex-presidente da Fifa apontado pelos argentinos como pivô da saída prematura de Maradona da Copa de 1994.

“E 32 anos depois, a ‘Scaloneta’ vai vingar a Copa que roubaram do Dez, a que não nos deixaram levantar”, diz o canto criado pela torcida e entoado pelos jogadores no vestiário para comemorar as vitórias nos mata-matas deste Mundial. Para entender a “vingança”, é preciso voltar no tempo, mais precisamente em 1991.

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Em abril daquele ano, Maradona, que atuava pelo Napoli, foi punido pela Federação Italiana de Futebol por 15 meses após exame ter detectado vestígios de cocaína no organismo do jogador. No mesmo mês, foi detido com drogas pela polícia argentina. Após tratamento, voltou à seleção e foi convocado para a Copa de 1994.

Nos Estados Unidos, Maradona anotou um golaço na estreia contra a Grécia e comemorou com uma careta raivosa em direção à câmera, uma imagem que marcou o futebol. Do outro lado da transmissão, entre milhões de telespectadores, estava seu desafeto público, João Havelange, que quatro anos antes tinha sido chamado de “ladrão” pelo camisa 10.

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No duelo seguinte, outra imagem histórica. Contra a Nigéria, Maradona se despediu das Copas e da seleção argentina de mãos dadas com uma enfermeira. O jogador havia sido sorteado para o exame antidoping, que detectou a existência de efedrina e mais quatro substâncias proibidas. Como punição, o ídolo foi suspenso do Mundial. Abalada, a equipe perdeu para a Bulgária na terceira rodada da fase de grupos e para a Romênia nas oitavas de final.

Maradona versus Havelange

A teoria de que João Havelange teria manipulado o sorteio do exame antidoping para enquadrar Maradona surgiu do próprio camisa 10. Ele alegou ter ingerido remédio para resfriado e acusou o presidente da Fifa de armar um complô para tirá-lo do torneio. “Cortaram as minhas pernas”, disse o meia, arrasado. Há quem diga que a careta para a câmera teria sido um recado para Havelange e que o executivo teria entendido a provocação do argentino.

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Outras teorias espalhadas por ex-jogadores argentinos de diferentes épocas, como Alfio Basile e Abel Balbo, cravam que Havelange quis abrir caminho para o título do Brasil, porém a inimizade com Maradona seria o estopim para a suposta manipulação (existe a tese sem comprovação de que o cartola queria qualquer seleção campeã, menos a Argentina, em seu último ano no comando da Fifa).

Joseph Blatter, ex-secretário-geral da entidade e sucessor de Havelange, revelou detalhes da suspensão de Maradona em sua biografia, publicada em 2018. De acordo com o livro, o comandante brasileiro da Fifa tentou esconder o caso ao lado de Julio Grondona, presidente da AFA (Associação de Futebol Argentino). A Albiceleste, por sinal, não perdeu pontos no Mundial em razão do doping.

Manipulado ou não, o Mundial de 1994 segue vivo na memória da torcida argentina que, na semifinal contra a Inglaterra, terá um motivo a mais para estimular a “Scaloneta” a buscar a sonhada quarta estrela.

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