A legenda do corte do episódio de The Rest Is Football que analisava a eliminação da Inglaterra, publicado no dia seguinte à derrota para a Argentina, dizia:
“Eles tinham mais medo de serem eliminados do torneio do que empolgação e fome para vencer.”
Ao lado de Micah Richards e Alan Shearer, Gary Lineker conduzia a discussão de um apartamento luxuoso com vista para a Times Square, em Nova York. Eles encontram-se nos Estados Unidos desde a segunda semana de junho, quando começou a Copa, acompanhando o torneio para uma audiência que já havia se acostumado a consumir aquele tipo de conversa em outro ambiente.
A estreia do renomado ex-jogador na Netflix, depois de 26 anos na BBC, mereceu a atenção de Jamie Braidwood, do Independent. A provocação da manchete publicada em 10 de junho (“Gary Lineker’s Netflix World Cup is underway – but his rival is not the BBC”) apontava para uma disputa diferente daquela imaginada inicialmente.
Segundo o jornalista, a Netflix “implorou” para transmitir 40 episódios consecutivos do podcast The Rest Is Football durante o Mundial. O objetivo não era competir diretamente com a cobertura da BBC ou da ITV, mas ocupar o espaço para onde a atenção tem se direcionado há alguns anos: cortes, conversas e formatos derivados que continuam circulando depois dos jogos.
A parceria de distribuição do creator show de Lineker foi anunciada pela Netflix no fim do ano passado. O IP integra o portfólio da Goalhanger, empresa de podcasts fundada por Lineker e que se tornou uma das propriedades de mídia de crescimento mais acelerado do Reino Unido.
Além de The Rest Is Football, a companhia reúne sucessos como The Rest Is History, The Rest Is Politics, The Rest Is Politics: US e The Rest Is Entertainment, todos posicionados regularmente no top 10 das paradas de podcast.
A velocidade para lançar o projeto de Lineker durante a Copa reforça a provocação inevitável feita pelo analista Omar Oakes nesta semana.
Os resultados do trimestre divulgados na quinta mostram que Netflix reportou receita de US$ 12,56 bilhões, um aumento de 13% em relação ao ano anterior, mas não conseguiu fugir das conversas que questionam seu engajamento.
Quando o co-CEO Ted Sarandos afirmou a analistas que os podcasts em vídeo estavam “superando os demais em dispositivos móveis”, havia uma mensagem implícita de que esse conteúdo começava a conquistar justamente os momentos, telas e hábitos de consumo em que a Netflix historicamente tinha menos presença.
Logo depois que a Netflix anunciou a entrada do The Rest Is Football em sua grade para a Copa, o mercado fez a leitura mais comum quando se analisa as estratégias de esportes da empresa. Ou seja, apoiar-se na retórica máxima de capturar a conversa ao redor dos eventos, em formatos de narrativas conectados ao comportamento das novas audiências.
O atual cenário, por sua vez, parece sinalizar para uma mudança de estratégia.
A Netflix está entre os players apontados pela CNBC como potenciais interessados nos direitos da Copa do Mundo de 2030 e 2034 nos Estados Unidos.
A mesma empresa que parecia encontrar uma alternativa aos altos custos dos direitos esportivos agora aparece na discussão sobre justamente os ativos mais disputados ( e caros) da indústria.
O show de Lineker reafirma a busca de crescimento iniciada em 2025 via podcasts em vídeo, creators e consumo móvel, aproximando a Netflix de uma lógica criada e dominada pelo YouTube.
A ironia de Oakes aponta justamente para essa contradição. A Netflix estaria sendo levada a um território historicamente associado ao YouTube: visualização durante o dia, telas de dispositivos móveis, relacionamento com creators e, ainda que com resistência, a ideia de disponibilizar conteúdos em um formato mais aberto.
“A Netflix está competindo nos mesmos termos do YouTube, no território do YouTube, utilizando o talento disponível no YouTube.”
O desfecho dessa disputa pode ser diferente do esperado. Como afirmou Matt Belloni, do Puck, “a Netflix nunca vai conseguir vencer o YouTube no seu próprio jogo”.