A derrota da Argentina para a Espanha por 1 a 0 na final da Copa do Mundo de 2026, disputada no domingo (19/07), provocou uma onda de xenofobia, racismo e ameaças contra estudantes brasileiros que vivem no país, principalmente universitários de medicina. O caso ganhou repercussão após a emissora argentina Crónica TV exibir imagens e publicações de brasileiros comemorando o resultado da decisão.
Ameaças de morte, pedidos de deportação, ofensas racistas e divulgação de dados pessoais começaram a se multiplicar poucas horas depois da exibição do programa. Em diversas mensagens publicadas nas redes sociais, brasileiros foram chamados de “macacos”, acusados de “usar” a educação pública argentina e pressionados a deixar o país.
Entre os casos está o de uma estudante brasileira de medicina da Universidade de Buenos Aires (UBA), que teve seus dados pessoais divulgados após uma campanha nas redes sociais. Uma pueril provocação nos stories do Instagram dizia apenas que dormiria tranquila na noite de domingo, acompanhada de uma foto da seleção espanhola na TV. Por questões de segurança, o nome da universitária será preservado.
Diversas mensagens no X (antigo Twitter) pedem que ela seja expulsa da faculdade e perca o emprego no hospital em que trabalha. A universitária passou a receber xingamentos de todos os tipos, ameaças de morte e pedidos para que fosse deportada. Com medo, decidiu apagar seu perfil no Instagram.
“Vejam como ela diz em seus stories que ‘dorme tranquila’ vendo o país que lhe deu tudo sofrer. A essa gente é preciso deportar. Simplesmente. Lamentavelmente, o diploma já não podemos tirar dela, mas os que insultam argentinos enquanto estudam aqui não deveriam poder se formar”, disse a dona de um dos perfis atuantes na onda de ataques.
Outro episódio, revelado pela Agência Pública, envolve uma segunda estudante brasileira, de 23 anos, que também cursa medicina. Ela publicou, antes da partida, uma brincadeira dizendo que havia vestido a camisa da Argentina para servir de “mufa” (pé-frio). Depois de aparecer na cobertura da Crónica TV, seu endereço e seu documento de identidade argentino (DNI) foram divulgados na internet.
A brasileira afirma ter recebido mensagens como: “Quando eu te vir na universidade, pode ter certeza de que você vai sofrer. Vou bater na sua cabeça com um martelo”. Além disso, chegou à sua DM no Instagram uma foto de arma de fogo,
Exposição na televisão
A escalada das ameaças ocorreu após a Crónica TV exibir imagens retiradas de perfis de brasileiros no TikTok e no Instagram, identificando estudantes que comemoravam a derrota argentina.
Durante a transmissão, comentaristas associaram as comemorações à presença de estrangeiros nas universidades públicas do país. Um dos apresentadores afirmou que “eles vêm para cá estudar de graça e são ingratos”, reforçando um discurso que rapidamente ganhou força nas redes sociais.
Após a exibição, perfis de brasileiros passaram a ser compartilhados em massa. Em diversas publicações, usuários divulgaram nomes, locais de estudo, hospitais onde realizam residência médica e perfis pessoais, além de defenderem que esses estudantes fossem expulsos da Argentina ou impedidos de exercer a profissão.
Diversos posts nas redes sociais incentivam denúncias às universidades e hospitais e questionam o acesso de estrangeiros à educação pública argentina. Também há manifestações contrárias à perseguição, com usuários argentinos defendendo que comemorar um resultado esportivo não justifica campanhas de assédio, exposição de dados ou ameaças.
Medo e insegurança
O clima de insegurança alterou a rotina de diversos estudantes brasileiros na Argentina. Diante do temor de novos episódios de violência, muitos universitários afirmam estar evitando sair de casa, faltando às aulas e até deixando de usar camisas da seleção brasileira ou outros símbolos que possam identificá-los.
Entidades estudantis e representantes da comunidade brasileira na Argentina passaram a cobrar providências das autoridades do país para investigar as ameaças virtuais, identificar os responsáveis pela divulgação de dados pessoais e garantir a segurança dos estudantes estrangeiros.
Até o momento, não houve pronunciamento público nem nota oficial do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) ou da Embaixada do Brasil em Buenos Aires sobre os episódios de ameaças e xenofobia.
Enquanto isso, o Consulado-Geral do Brasil em Buenos Aires informou que brasileiros que necessitem de orientação, apoio consular ou intermediação junto às autoridades policiais argentinas podem entrar em contato pelo e-mail [email protected].




