A Eve Air Mobility, empresa da Embraer voltada à mobilidade aérea urbana, desenvolve um eVTOL (veículo elétrico de decolagem e pouso vertical). Agora, ela anunciou dois novos acordos que representam a intenção de compra de quase 50 aeronaves.
Trinta veículos foram encomendados pela MOOV, empresa que pretende utilizar os eVTOLs para o turismo em Cabo Verde. O arquipélago africano possui dezenas de ilhas e distâncias curtas entre os principais destinos, características que favorecem esse tipo de operação. O país ganhou destaque internacional recentemente pela campanha da seleção na Copa do Mundo, aumentando o interesse turístico na região.
Já a Shearwater Global Capital assinou uma carta de intenção para adquirir 16 unidades, que serão utilizadas em operações de táxi-aéreo. O acordo representa um novo passo para a inserção do modelo brasileiro no mercado de transporte urbano de passageiros.
O carro voador do Brasil
O eVTOL da Eve foi projetado para reduzir custos operacionais, emitir menos ruído que helicópteros convencionais e operar com emissão zero de carbono durante o voo. A proposta é atender trajetos curtos em áreas urbanas e metropolitanas, reduzindo o tempo de deslocamento e ampliando as opções de mobilidade aérea.
Com autonomia de aproximadamente 100 quilômetros e capacidade para transportar quatro passageiros, além do piloto, o modelo está em fase de testes e certificação e deve chegar ao mercado em 2027, com valor estimado em R$ 22 milhões.

Outros países também aceleram projetos
Na China, empresas como XPeng AeroHT e EHang já realizam voos de demonstração e avançam nos processos de certificação. A EHang, inclusive, tornou-se uma das primeiras empresas do mundo a obter autorização para operações comerciais de um eVTOL autônomo em seu mercado doméstico.

Nos Emirados Árabes Unidos, Dubai trabalha para iniciar operações comerciais de táxis aéreos já em 2026. A cidade prepara vertiportos, estruturas destinadas ao pouso e decolagem dessas aeronaves, além de firmar parcerias para integrar o novo modal ao sistema de transporte urbano.
Também há projetos em desenvolvimento nos Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e Japão. A disputa pelo mercado dos carros voadores já começou. Mas o Brasil pode estar largando na frente quando o assunto é comercialização.
Antes mesmo do lançamento do modelo, a Eve já acumula cerca de 2.700 cartas de intenção de compra, distribuídas entre companhias aéreas, operadores de helicópteros, empresas de leasing e prestadores de serviços de mobilidade em diversos continentes.
Na prática, essas cartas de intenção representam um sinal de confiança do mercado. Embora não sejam contratos definitivos, mostram que operadores de diferentes países pretendem incorporar as aeronaves às suas operações assim que elas forem certificadas.
Outro diferencial da Eve é a estrutura por trás do projeto. A empresa faz parte do grupo Embraer, uma das maiores fabricantes de aeronaves do mundo. Isso permite aproveitar décadas de experiência em engenharia aeronáutica, certificação, cadeia de fornecedores e produção industrial, reduzindo etapas que muitos concorrentes ainda precisam construir.
Como empresa de capital aberto listada na Bolsa de Nova York (NYSE), a Eve também consegue captar recursos com investidores para financiar o desenvolvimento da tecnologia. Cada novo acordo comercial, avanço na certificação ou ampliação da carteira de clientes fortalece o projeto e aumenta a confiança do mercado.

Se a produção em escala se confirmar, os impactos podem ir além da fabricação das aeronaves. O desenvolvimento dos eVTOLs no Brasil pode atrair investimentos para pesquisa, fortalecer a indústria aeroespacial nacional, ampliar a cadeia de fornecedores de alta tecnologia e gerar empregos especializados. Ao mesmo tempo, abre espaço para uma transformação no mercado de transporte aéreo de curta distância, pressionando empresas de táxi-aéreo e operadores de helicópteros a se adaptarem ao novo concorrente.
Enquanto muitos fabricantes ainda concentram esforços na validação da tecnologia, a Eve já trabalha para transformar o projeto em um produto comercial com alcance global.
O que esperar?
Especialistas apontam que 2026 e 2027 serão anos decisivos para a certificação e o início das primeiras operações comerciais. A expectativa é que os eVTOLs comecem atendendo rotas específicas, como ligações entre aeroportos, centros financeiros, áreas turísticas e regiões de difícil acesso.
Mas a evolução da tecnologia precisará ser acompanhada pela evolução da infraestrutura e da legislação.
Ao longo desse processo, entram em pauta temas como a regulamentação do espaço aéreo urbano, a construção de vertiportos, a infraestrutura para recarga elétrica, a certificação das aeronaves, a aceitação da população, os custos operacionais e a definição de preços que tornem o serviço competitivo em relação aos helicópteros e, no futuro, acessível a um público maior.
A consolidação dos carros voadores dependerá não apenas da tecnologia, mas da capacidade de governos, fabricantes e operadores de criar uma estrutura capaz de integrar esse novo modal ao transporte das cidades.




