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Show de Bad Bunny e repercussão online reacendem debate: Brasil é um país latino?

Formalmente, a América Latina compreende o país brasileiro; mesmo assim, pesquisa revelou que apenas 4% da população se considera latina

Após a apresentação do cantor porto-riquenho Bad Bunny no Super Bowl, tematizada em torno da identidade latino-americana, acendeu discussões em todo o mundo sobre o que caracteriza a “latinidade”. O debate se intensificou nas redes sociais quando um usuário na plataforma X, antigo Twitter, afirmou em inglês: “Português é falado em só um país da América Latina. Olha esses brasileiros tentando ser parte do time”. A postagem implica que a identidade “latina” pertenceria apenas aos países da América Latina que falam espanhol.

Formalmente, o Brasil é um país da América Latina. O termo define a parcela dos continentes americanos – isto é, América do Norte, Central e do Sul – contendo países que foram colonizados por nações que falam idiomas românicos, caso do português, espanhol e francês.

Mesmo assim, uma pesquisa do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) revelou um dado curioso: somente 4% dos brasileiros se definem como latino-americanos, enquanto 83% se identificam primariamente como “brasileiros”. O levantamento, realizado em 2023, também apontou que 10% dos entrevistados se consideram “cidadãos do mundo”.

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A origem do termo “latino-americano”

O conceito de América Latina tem origens no século 19, com diferentes versões sobre seu surgimento. “Alguns autores atribuem-no ao chileno Francisco Bilbao, que o mencionou pela primeira vez numa conferência em Paris em 1856”, destaca Alejandra Claros Borda, secretária-geral do Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF).

A popularização do termo ocorreu em 1861, durante o governo do imperador francês Napoleão 3º, que buscava estabelecer influência francesa no continente americano baseada na suposta afinidade entre povos de origem latina. Em 1862, os franceses invadiram o México, episódio diretamente relacionado à origem da expressão América Latina.

Pesquisadores Rafael Leporace Farret e Simone Rodrigues Pinto explicam que “A ideologia panlatina, que já existia na França desde os anos 1830, ganhando força no governo de Napoleão 3º [o chamado Segundo Império Francês, de 1852 a 1870], objetivava subjugar as nações hispano-americanas ao poderio francês e, ao mesmo tempo, visava diminuir a área de atuação da política imperialista dos EUA”.

Os autores acrescentam que “Seu ponto central era a aproximação cultural entre a França e as nascentes repúblicas de língua espanhola, a partir de uma união ‘latina’ intercontinental, mas que obviamente teria a França como liderança.

Identidade brasileira versus latino-americana

Edições anteriores da pesquisa do Cebrap, realizadas em 2014 e 2018, apresentaram resultados semelhantes aos de 2023, indicando um padrão consistente na forma como os brasileiros enxergam sua identidade cultural.

Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP e um dos responsáveis pelo estudo, explica que “Essa é uma questão estrutural, que não se altera”. Segundo ele, “É um pouco a ideia de que nós somos autossuficientes na nossa brasilidade. Não é que nós rejeitemos a noção de América Latina, simplesmente não a temos de forma profunda, como têm nossos vizinhos.”

Nas redes sociais, comentários de brasileiros reforçam essa visão. Um usuário afirmou: “O Brasil é um país único, ninguém se parece com a gente”. Outro escreveu: “Ser latino nos coloca em um pacote. Ser brasileiro nos torna únicos! E pra mim isso basta”.

Diferenças históricas explicam a baixa identificação

A fraca identificação dos brasileiros com a latinidade relaciona-se às diferenças no processo de independência do Brasil comparado aos países hispânicos. O Brasil se tornou independente mantendo relação próxima com Portugal, após ter sido capital do império português entre 1808 e 1821. Já os países hispânicos romperam com a Espanha de forma mais conflituosa.

João Carlos Corrêa, diretor cultural do Memorial da América Latina em São Paulo, observa que para os brasileiros foi mais cômodo se identificar como “um país-continente, independente e com raízes europeias”, enquanto os países hispânicos desenvolveram um sentimento de “somos um outro povo, o povo latino-americano”.

Ser latino nos EUA

Nos Estados Unidos, o termo “latino” exclui os brasileiros das estatísticas oficiais. A definição americana limita a classificação de latino ou hispânico apenas a pessoas de países “de cultura ou origem espanhola”, conforme estabelecido por lei de 1976 que determinou a coleta de dados sobre “americanos de origem ou descendência espanhola”.

Em 1977, a categoria era denominada apenas “hispânico” nas estatísticas oficiais americanas. Em 1997, houve alteração para “hispânico ou latino”, visando aumentar a taxa de resposta ao incluir o termo “latino”, mais utilizado na região oeste dos EUA, enquanto “hispânico” era mais comum no leste. A revisão mais recente, realizada em 2024, manteve tanto o nome da categoria quanto sua abrangência, perpetuando a exclusão dos brasileiros desta definição.

Ressignificação do termo no século 20

Apesar do início conturbado, o termo América Latina foi ressignificado no século 20, especialmente com a criação da ONU e da Comissão Econômica para a América Latina e do Caribe (Cepal) em 1948, uma das cinco comissões regionais da ONU criada para impulsionar o desenvolvimento econômico e social na região.

No Brasil, a identificação com o conceito de América Latina seguiu caminho particular. Guimarães explica que “A noção de latino-americanidade só entra mais forte no Brasil nos anos 1960, com a esquerda intelectual que, por conta das ditaduras, vai fazer uma cooperação intelectual e no movimento de emancipação contra o imperialismo americano”.

Este período coincide com o surgimento de importantes composições musicais brasileiras que celebravam a identidade latino-americana, como “Soy loco por ti, América” (Caetano Veloso, 1968), “Sangue Latino” (Secos e Molhados, 1973), “Apenas um Rapaz Latino-Americano” (Belchior, 1976) e “Canción Por La Unidad de Latino América” (Milton Nascimento e Chico Buarque, 1979).

Guimarães analisa que “Com toda a discussão em torno das escolas de economia da Cepal, essa narrativa latino-americana chega para nós com mais ênfase. Mas ela vem de cima para baixo, das elites para o povo, e nunca entra no âmago da nossa identidade“.

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O professor exemplifica que o Brasil frequentemente adapta sua identificação regional conforme a conveniência: “A América Latina é um chapéu que o Brasil usa conforme a conveniência. Que a gente troca por América do Sul quando convém. Ou troca por uma expansão europeia nas Américas, quando faz um relacionamento Brasil-Europa, ou por Sul Global quando falamos com a China”.

Sobre a questão se brasileiros são ou não latinos, Guimarães oferece uma resposta: “Eu respondo assim: os brasileiros não se sentem profundamente latino-americanos, mas fazem parte da comunidade latino-americana”.

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