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Cantareira opera com 19% da capacidade e ameaça abastecimento em SP

Reservatório registra menor nível desde a crise hídrica de 2014 e especialistas do Cemaden projetam dificuldades para 2026 mesmo em cenários otimistas de chuva

O Sistema Cantareira, principal reservatório de água que abastece São Paulo, opera atualmente com apenas 19% de sua capacidade total. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) projeta dificuldades no abastecimento para 2026, mesmo em cenários otimistas de chuva. A situação afeta diretamente cerca de nove milhões de pessoas na capital e Região Metropolitana que dependem deste sistema.

O baixo volume registrado nesta sexta-feira (16/01) representa o menor nível desde a crise hídrica de 2014. A queda resulta da severa estiagem que atingiu o Sudeste em 2025, quando a região recebeu apenas 900 milímetros de chuva, volume inferior ao registrado durante a crise de 2014-2015 e o menor da última década.

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Com o nível abaixo de 30%, protocolos de restrição foram ativados. Em condições normais, com o reservatório a 60% da capacidade, são distribuídos 33 metros cúbicos por segundo, totalizando 2,85 bilhões de litros diários. Atualmente, a distribuição caiu para 23 metros cúbicos por segundo, resultando em 1,9 bilhão de litros diários – uma redução de 864 milhões de litros por dia.

Impacto nas regiões abastecidas

O Sistema Cantareira integra um conjunto de sete reservatórios interligados que abastecem o estado de São Paulo. As áreas mais altas e periféricas da capital já enfrentam problemas devido à redução da pressão da água implementada como medida de contenção.

Em 2025, a bacia do Cantareira recebeu apenas 943 milímetros de chuva, quase 30% abaixo do esperado. No trimestre entre outubro e dezembro, período estratégico para recarga dos reservatórios, o Sudeste registrou um dos maiores déficits de chuva da série histórica recente, com variação negativa de 113,7 milímetros.

Projeções para 2026

Para avaliar os cenários futuros, especialistas do Cemaden realizaram projeções considerando diferentes volumes de precipitação ao longo de 2026. O estudo baseou-se na média histórica de chuvas na região, com observações de mais de uma década, e também analisou cenários com precipitações 25% e 50% abaixo do esperado.

Todos os cenários projetados indicam um ano inteiro de contenção. As previsões meteorológicas apontam que a precipitação continuará abaixo da média durante o restante do verão.

Alan Vaz, superintendente de operações para eventos críticos da ANA, afirma: “Vamos trabalhar o ano inteiro sob restrição, com redução ainda mais intensa de água. Vai ser um período longo de contenção que vai afetar todos que são abastecidos pelo Cantareira”.

Medidas necessárias

Benedito Braga, engenheiro e ex-presidente da Sabesp, defende ações imediatas: “O sistema está em crise e as pessoas precisam entender. É hora de economizar água e isso é urgente para seguirmos em medidas em que o abastecimento não é afetado.”

Adriana Cuartas, especialista em hidrologia do Cemaden que acompanha a situação do Cantareira desde 2014, alerta: “Não estamos mais em um cenário pontual em que a chuva vem depois e superamos a crise. A bacia está seca e com volume baixo há anos. Quanto mais estresse ela passa, menor a recuperação.”

Rodrigo Manzione, especialista em recursos hídricos e professor na Unesp, concorda com a necessidade de racionamento: “A única solução imediata é fornecer menos água. A gente está entrando mais seco no verão do que na crise de 2014. Ou seja, podemos esperar por algo pior.”

Causas e soluções

Ana Paula Cunha, especialista em secas, explica as causas do fenômeno: “Um oceano mais quente impacta em tudo que acontece na atmosfera. Um dos pontos é que o calor da água está causando mais bloqueios atmosféricos, que impedem o avanço da chuva.”

Especialistas também indicam como solução o investimento na redução de perdas na distribuição. Atualmente, até 30% de toda a água distribuída se perde antes de chegar às torneiras devido a problemas na tubulação.

A Agência Nacional de Águas (ANA), que trabalha em conjunto com a SP Águas na gestão hídrica da cidade, considera a situação urgente. Os especialistas esclarecem que não bastam chuvas isoladas, mas é necessário que sejam homogêneas sobre as bacias hidrográficas e em volume suficiente para recuperar o nível do reservatório.

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