A Polícia Federal identificou conversas que demonstram como investigados manipulavam balanços de fundos de investimento ligados ao Banco Master. Nos diálogos interceptados pela PF nesta sexta-feira (13/02), os envolvidos fazem menções ao filme “O Lobo de Wall Street”, conhecido por retratar esquemas de enriquecimento ilícito no mercado financeiro. A investigação, inicialmente conduzida em São Paulo, agora está sob jurisdição do Supremo Tribunal Federal.
As interceptações revelam um esquema complexo que incluía manipulação contábil, reestruturações societárias e tentativas de legitimar transações financeiras suspeitas. Segundo informações do UOL, este material serviu como base para a segunda fase da Operação Compliance Zero, que resultou em buscas em endereços de Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, e na prisão de seu cunhado, Fabiano Zettel, em janeiro.
Siga a TMC no WhatsApp e fique por dentro das últimas notícias do Brasil e no mundo
O esquema tinha como objetivo ocultar patrimônio e desviar recursos por meio de fundos de investimento. A investigação aponta que Vorcaro exercia papel central, transmitindo instruções às gestoras de fundos através de seus operadores.
Principais envolvidos nas conversas interceptadas
Os diálogos identificam como principais interlocutores Ascendino Madureira, conhecido como Dino, funcionário da Master Corretora, e Artur Martins de Figueiredo, que atuava como diretor da gestora Trustee, administradora dos fundos. Segundo a Polícia Federal, Ascendino “desempenha um papel operacional crucial, atuando na movimentação de valores e patrimônio por intermédio de fundos de investimento”.
A investigação começou em São Paulo, com foco em possíveis fraudes em fundos utilizados pelo Banco Master. O caso foi posteriormente transferido para o STF, onde tramita junto a outros processos relacionados.
Referências a “O Lobo de Wall Street”
Em uma das conversas obtidas, após receber informações detalhadas sobre a estrutura dos fundos, Ascendino respondeu com uma figurinha de Leonardo DiCaprio no filme “O Lobo de Wall Street”, o que a PF classificou como “particularmente reveladora”. Esta troca sugere, “de forma irônica e sarcástica, que a engenharia financeira complexa se assemelhava às práticas, muitas vezes ilícitas, retratadas no filme”.
Dimensão do esquema e valores envolvidos
O esquema investigado movimentou valores expressivos no sistema financeiro. As atividades de Vorcaro e dos demais investigados resultaram em R$ 20 bilhões alocados em fundos de liquidez incerta e R$ 5,7 bilhões em operações irregulares com empresas ligadas a supostos laranjas.
Em um dos diálogos, Ascendino pede a Artur que interviesse junto ao auditor do fundo Amazonita para evitar impacto negativo no balanço do Master: “Puta, cara, eu sei que é foda, mas isso vai impactar em demasiado o resultado do banco”.
Operação Compliance Zero e conexões com outras investigações
O relatório com as interceptações fundamentou a segunda etapa da Operação Compliance Zero. As provas da Operação Quasar, que investiga lavagem de dinheiro no mercado financeiro para beneficiar o crime organizado e na qual Artur Martins de Figueiredo é investigado, foram compartilhadas com o inquérito sobre o Master. A investigação levou a 39 mandados de busca e apreensão cumpridos pela PF em janeiro, após autorização do STF.
Posicionamento das defesas
Os advogados de Vorcaro e Artur foram procurados, mas não responderam aos questionamentos. A defesa de Ascendino Madureira, por meio do advogado Jair Jaloreto, afirmou em nota que a interpretação de que haveria pedido ou prática de fraudes “não corresponde ao conteúdo real do diálogo”. Segundo a defesa, “trata-se de conversa técnica sobre atualização de avaliação com base em laudo especializado, procedimento comum no mercado e absolutamente regular. Qualquer leitura diversa decorre de descontextualização”. O advogado também disse que não comentaria trechos “isolados fora do contexto integral dos autos”.
Diálogos revelam pedidos explícitos de alterações
Em outro diálogo, Madureira solicita explicitamente alterações nos balanços do fundo Amazonita para os anos de 2023 e 2024. Em conversa com Arthur, Dino revela pressões para adulteração de valores: “Porra, não fizeram nada, cara. A carteira continuou com um bi. Porra, e o Astralo (outro fundo) está vendendo as cotas para FIM 2 por 4 bi, cara. Como é que vai comprar por 4 bi uma coisa que está valendo UM, cara? Porra, me ajuda aí, cara. Porra, Rogério…não sei cara. Porra. Vê ai, cara.”
A PF identificou Ascendino como “elo fundamental entre Daniel Vorcaro, o beneficiário final das operações, e Artur, o responsável técnico pela execução das demandas nos fundos gerenciados pela Trustee”. Artur Figueiredo, que deixou a Trustee DTVM após ser alvo de buscas da PF em agosto, também é investigado na Operação Quasar. Ele foi punido pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) por irregularidades financeiras no passado, mas conseguiu reverter a condenação, sendo absolvido em março de 2025.
