O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou os investimentos em armamentos por países desenvolvidos na abertura da 39ª Conferência Regional da FAO, nesta quarta-feira (04/03), em Brasília. Segundo o presidente, os recursos destinados a conflitos armados poderiam erradicar a fome que atinge mais de 630 milhões de pessoas no planeta. Lula solicitou que os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU interrompam a escalada armamentista.
O mandatário brasileiro apresentou um cálculo durante seu pronunciamento na conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. Os gastos militares mundiais em 2025 totalizaram cerca de 2,7 trilhões de dólares. Se esse valor fosse dividido entre os mais de 630 milhões de indivíduos que enfrentam fome, cada um receberia aproximadamente 4,3 mil dólares.
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“As pessoas importantes do planeta, que deveriam estar preocupadas com a fome, estão preocupadas com guerra”, afirmou Lula. O presidente demonstrou preocupação com o que considera falta de sensibilidade dos governantes em relação às pessoas que sofrem com a escassez de alimentos.
O chefe de Estado brasileiro questionou as escolhas dos governantes internacionais, que priorizam gastos bélicos enquanto a insegurança alimentar persiste globalmente. Lula pediu o fim das sanções contra Cuba e questionou a capacidade da Organização das Nações Unidas de resolver os conflitos atuais.
“Eu fico muito emocionado de saber que a fome mexe muito pouco com o coração dos governantes do mundo. Mexe com muitos seres humanos, individualmente, mexe com ONGs, mexe com igrejas, mas não sensibiliza muito o coração dos governantes”, declarou o presidente.
Sobre a invisibilidade das pessoas famintas, Lula afirmou: “Porque as pessoas que passam fome, na maioria dos países do mundo, são tratadas como se fossem invisíveis. As pessoas não as querem enxergar”. O presidente questionou: “Vocês percebem que não precisaria ter fome se houvesse o bom senso dos governantes?”
Ao abordar a situação de Cuba, o presidente declarou: “Pasmem: Cuba não está passando fome porque não sabe produzir, Cuba não está passando fome porque não sabe construir a sua energia, Cuba está passando fome porque não querem que Cuba tenha acesso às coisas que todo mundo deveria ter direito.”
O mandatário brasileiro criticou a atuação da ONU. Lula afirmou que “a ONU está ficando desacreditada” e não está cumprindo o papel previsto na Carta de 1945. “A ONU está cedendo ao fatalismo dos senhores das guerras e não tem espaço pra os senhores da paz.”
O presidente mencionou o líder norte-americano Donald Trump em suas observações. “Vocês acham normal o presidente [Donald] Trump todo dia ficar dizendo: eu tenho o maior navio do mundo, eu tenho o maior exército do mundo? Por que ele não fala: eu tenho a maior capacidade de produção de alimento do mundo?”
Lula reagiu ao fato de que o conflito na Ucrânia se arrasta por mais de quatro anos, mesmo que todos já saibam o seu desfecho, enquanto os líderes seguem incapazes de negociar um acordo.
Defendendo a autonomia regional, o presidente afirmou: “Nós não queremos submissão. Nós não queremos viver de favor. Nós queremos, de forma soberana, dar alimentação para o nosso povo, e qualquer país da América Latina, do Caribe, pode dar alimentação ao nosso povo”.
Sobre a posição brasileira em relação a armamentos, Lula declarou: “Aqui no Brasil, nós fizemos a opção de não possuir armas nucleares na nossa Constituição. Porque, há muito tempo, a gente chegou à conclusão de que aquele ditado ‘quem quer paz se prepara para guerra’ é para quem quer fazer guerra. Nós queremos paz”.
O presidente lembrou que a América Latina é uma zona de paz, em meio a ânimos acirrados e belicosos no cenário internacional. Lula pregou a união latino-americana e a libertação dos povos da região da exploração por parte dos mais ricos.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, participou do evento apresentando a perspectiva brasileira sobre segurança alimentar. “Somos uma potência agroalimentar inovadora, profundamente conectada à terra, às águas e às florestas”, destacou o chanceler. Ele acrescentou: “Somos a primeira região a assumir o compromisso coletivo de erradicar a fome, mas também sabemos, como nos ensinou o brasileiro Josué de Castro, que a fome não é um fenômeno natural, mas uma criação humana”.
A primeira-dama Janja da Silva recebeu reconhecimento da FAO por seu trabalho no combate à fome. Ao receber o título de “Campeã Especial da Boa Vontade Contra a Fome”, declarou: “A força da experiência brasileira na luta contra a fome é histórica e conhecida mundialmente, graças ao trabalho do presidente Lula, que tirou nosso país novamente do mapa da fome. Um dos nossos maiores orgulhos é o Programa Nacional de Alimentação Escolar [Pnae], do qual tenho a honra de ser embaixadora”.
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