A nova leva de documentos do caso Jeffrey Epstein, bilionário morto em 2019 após ser preso por tráfico e exploração sexual de menores de idade, inclui menções e correspondências do financista e seus associados com algumas figuras conhecidas do público brasileiro. Luiz Fernando Levy e Jorge Paulo Lemann são alguns dos nomes que aparecem nos relatórios – publicamente disponíveis no portal do Departamento de Justiça dos Estados Unidos.
Os registros incluem conversas de até mesmo décadas atrás, como um e-mail de 2002 enviado por “Marcelo de Andrade” [ainda não identificado] para Ghislaine Maxwell, principal parceira e braço-direito de Epstein na manutenção da rede de prostituição infantil.
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Na mensagem, cujo assunto é “Visit to BR [‘Visita ao BR’ em inglês], “Marcelo de Andrade” enviou uma pequena lista de potenciais nomes que poderiam interessar financeiramente a Epstein. Na lista, são citados os nomes de Levy e Lemann; além disso, também aparecem os nomes do economista Armínio Fraga, do empresário Sergio Andrade e do escritor Paulo Coelho, mas Maxwell não expressou interesse nos dois últimos e a menção ao primeiro não passou de um e-mail.
Os “Arquivos Epstein” são parte do esforços para revelar o que provavelmente será o escândalo do século: afinal, o financista era conhecido por ter contatos em todas as áreas da elite global. Atletas, jornalistas, políticos, músicos, cientistas, empresários e diversos outros indivíduos teriam tido acesso a Epstein, feito negócios com ele, e até mesmo frequentado sua ilha particular – onde aconteciam festas gigantes e extravagantes, mas também onde os abusos e prostituição infantil ocorriam.
O poder de Epstein era vasto, afinal o financista poderia arruinar a carreira de qualquer um de seus “clientes” se revelasse o que faziam em sua mansão. Com isso, é seguro dizer que Epstein “controlava”, de certa forma, boa parte da elite mundial e os setores por ela representada.
Vale lembrar, todavia, que a menção nos Arquivos Epstein não configura automaticamente qualquer acusação ou insinuação. Os documentos e o acesso a eles são públicos.
Luiz Fernando Levy
O jornalista Luiz Fernando Levy, filho do político e fundador da UDN (União Democrática Nacional) Herbert Levy, foi dono da Gazeta Mercantil por mais de 20 anos.
Levy é mencionado três vezes nos arquivos. A primeira vez é no e-mail mencionado acima, enviado para Ghislaine Maxwell. Levy é descrito como “cronicamente quebrado [financeiramente], mas nunca morto” e como alguém de “prestígio e importância para o país”.
A segunda vez é em uma continuação da mesma conversa, onde Marcelo diz ter confirmado um encontro com Levy em seu escritório pela manhã.
A terceira e última menção a Levy ocorreu em outro e-mail, também encaminhado para Maxwell, de 2003: nele, Marcelo descreve a Gazeta Mercantil como sendo o “Wall Street Journal/Financial Times local”.
Marcelo afirma no e-mail que a Gazeta Mercantil “representa uma oportunidade de investimento interessante, uma vez que não estão em situação financeira confortável”.
“Tem mais alguém que você ou Jeff [Epstein] queiram ver? Algum lugar específico que vocês queiram visitar, algum pedido especial?”, terminou Marcelo na mensagem.
Depois disso, não há mais mensagens sobre Levy ou o proposto encontro entre ele e Epstein. Luiz Fernando Levy faleceu em 2017, aos 77 anos, em decorrência de problemas renais.
Jorge Paulo Lemann
Jorge Paulo Lemann é um empresário suíço-brasileiro conhecido por seu envolvimento em companhias como a Telemar, Lojas Americanas, Ambev e outras. Em 2019, ele foi citado pela Forbes como o segundo homem mais rico do Brasil.
Dos três nomes citados nos arquivos, Lemann é o que mais aparece: são 19 resultados nos arquivos quando se busca por “Jorge Paulo Lemann”, e mais de 50 resultados com apenas “Lemann”.
Vale citar, porém, que algumas menções são de documentos repetidos ou não são citações diretas das pessoas envolvidas nas conversas (por exemplo, títulos de notícias, listas de presença em eventos, ou listas de sites que acabam sendo incorporadas às mensagens).
Uma das menções relevantes a Lemann se dá em um e-mail de 2013, enviado para Jeffrey Epstein por Boris Nikolic – um de seus principais sócios. Nikolic diz na mensagem que “passou cinco horas” em uma reunião com Lemann, e que mesmo sem ter pedido diretamente, o brasileiro ofereceu investimentos e teria dito que “poderia trazer muitos outros amigos bilionários” para fechar negócio com Epstein.
Importante notar que Epstein já era investigado desde 2005 por seus crimes sexuais, e chegou a se declarar culpado por solicitar uma prostituta menor de idade em 2008.
Epstein respondeu ao e-mail de Nikolic dizendo apenas que “precisamos decidir e fechar [negócio] o mais cedo possível”.
Outra mensagem de 2013 entre Boris e Epstein mostra que Lemann foi citado como um possível parceiro de negócios:
“Já conversei com [estes contatos] – note que discuti uma possibilidade de criar um fundo sem mencionar Yuri Milner (exceto com Bill Gates):
I. Bill Gates
2. Jorge Paulo Lemann
3. David Rubenstein
4. Kimbal (e Elon) Musk
5. David Schwartz”, escreveu Nikolic.
E-mails de 2014 sugerem que Epstein não seguiu em frente com as negociações, mas não especificou se falava de Lemann, de outra parte envolvida, ou de todos.
O que foi o “Caso Epstein”, e por que ele importa
Jeffrey Epstein foi um financista estadunidense notório por ter cultivado, com seu dinheiro e influência, um círculo social de elites em todo o mundo. O magnata viria a transformar seu enorme livro de contatos em uma rede global de tráfico e exploração sexual de menores de idade, e chegou a ser condenado por prostituição de uma menor em 2008.
Epstein era conhecido pelas festas que promovia em sua “ilha pessoal”. Participaram dessas festas celebridades, atletas, políticos, empresários, cientistas e pessoas notáveis de praticamente todas as áreas da sociedade, o que também dava a Epstein acesso e poder inimagináveis; tanto pelo contato direto entre ele e as elites, quanto pela conhecida chantagem que o financista realizava com seus clientes, que temiam que Epstein divulgasse o que fizeram na sua mansão caso não o obedecessem. A mansão do financista contava com uma enorme quantidade de câmeras e microfones, capturando tudo que ali acontecia.
Quando o financista foi preso em 2019 por tráfico sexual de menores na Flórida e em Nova York, a população e setores da política dos Estados Unidos pressionaram o governo Trump a extrair de Epstein toda a verdade sobre os “Arquivos Epstein” – suas correspondências, os registros de voos para sua ilha, quem esteve na casa dele ao longo dos anos, entre outros.
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A verdade, porém, ficaria obstruída; no dia 10 de agosto de 2019, Jeffrey Epstein morreu na prisão, alegadamente após se suicidar em sua própria cela. Especialistas forenses desafiam a conclusão do poder público, e uma fita do FBI dizendo mostrar vídeos das câmeras de segurança do presídio possuía quase 3 minutos de imagens perdidas.
A divulgação dos “Arquivos Epstein” foi ignorada, contra a vontade e os protestos da população, pelos governos Biden e Trump até 2025. Depois de prometer, em sua campanha, que divulgaria os Arquivos Epstein caso fosse reeleito, o atual presidente Donald Trump o fez com quase um ano de atraso e resistência.
Documentos nos Arquivos Epstein “podem ser falsos”, alega governo Trump
Os novos documentos divulgados no caso Epstein podem ser livremente acessados no portal do Departamento de Justiça dos Estados Unidos, que encabeça os esforços do Ato de Transparência dos Arquivos Epstein.
Mesmo assim, o próprio Departamento comunicou uma mensagem confusa em nota oficial: no mesmo texto, o órgão afirma que realizou uma inspeção rigorosa da documentação enviada ao FBI, mas também alega que podem existir provas “falsas ou falsamente submetidas”, especialmente aquelas que incluírem “acusações contra o Presidente Trump”.
