A Polícia Militar de São Paulo investiga a morte de Thawanna Salmázio, de 31 anos, baleada durante abordagem policial na madrugada de sexta-feira (04/04), em Cidade Tiradentes, zona leste da capital. A soldado Yasmin Cursino Ferreira declarou em boletim de ocorrência que empregou força para assegurar a proteção dos agentes durante a intervenção. Thawanna foi atingida por disparo após discussão entre ela, seu marido Luciano Santos e policiais militares.
Existem relatos contraditórios sobre como começou o incidente. Os policiais militares afirmaram que Luciano se “desequilibrou” e por isso foi atingido pelo retrovisor da viatura. Luciano Santos, por sua vez, afirma que os agentes jogaram o carro de propósito contra o casal.
Vídeos registrados mostram a discussão entre o casal e os policiais. Nas imagens, é possível ouvir Thawanna questionando se a polícia “ia passar por cima” deles e alegando que a viatura “quase os atropelou”. Em outro vídeo, ouve-se a mulher dizendo: “vocês bateu {sic} em nós aqui, hein”.
Conforme o relato da soldado Yasmin registrado no boletim de ocorrência, houve necessidade de “emprego da força” para garantir a segurança dos policiais militares durante a abordagem. Um policial que presenciou os fatos relatou no registro policial que a vítima teria dado um tapa no rosto da soldado Yasmin antes do disparo. Segundo o documento, Thawanna teria “ido para cima da policial feminina”.
A discussão que antecedeu o disparo acontece fora do enquadramento da câmera. Em áudios captados após a passagem da viatura, é possível ouvir o confronto verbal. Durante a discussão, uma voz feminina questiona: “Tá ficando maluca?”. Uma voz masculina também aparece no registro. Na sequência, ouve-se o barulho de um tiro.
Vídeos obtidos após o tiro mostram Thawanna caída no chão, já baleada, enquanto um militar não identificado aponta uma arma de grosso calibre contra ela. A mulher agonizou na rua. Familiares relatam que os agentes foram violentos com as pessoas presentes. Luciano foi atingido com spray de pimenta.
Thawanna foi encaminhada para o Hospital Tiradentes. Ela não resistiu aos ferimentos e morreu. O marido relata que a vítima esperou por socorro durante período estimado em 40 minutos. Os agentes disseram que solicitaram atendimento, mas não informaram o tempo que levou para o socorro chegar.
O velório aconteceu sob forte comoção na zona leste da capital. Na sexta à noite, policiais dispararam balas de borracha e gás de efeito moral para dispersar manifestantes em duas vias da região. A morte provocou protestos na zona leste da capital, com moradores ateando fogo em pneus e madeiras em manifestação contra violência policial.
Existe divergência sobre o uso de câmeras corporais. No boletim de ocorrência não consta que os agentes envolvidos usavam câmeras corporais. A SSP-SP, contudo, afirmou que foram colhidas imagens dos equipamentos. Em vídeo obtido, a PM Yasmin aparece sem portar o aparelho.
A Secretaria de Segurança Pública declarou: “As circunstâncias são apuradas com prioridade absoluta pelas polícias Civil e Militar, com acompanhamento das corregedorias. As imagens das câmeras corporais e os laudos periciais já integram a investigação”.
A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou em nota que o caso se tratou de “morte em decorrência de intervenção policial”. O boletim de ocorrência, no entanto, não registrou essa classificação. Apenas o óbito foi comunicado no registro, além do crime de resistência, atribuído ao casal. Não foi mencionada lesão corporal, homicídio ou morte por intervenção policial no registro oficial.
Luciano Santos foi autuado pelo crime de resistência. Thawanna Salmázio, mesmo após ser atingida pelo disparo, também foi alvo de um Termo Circunstanciado de Ocorrência por resistência.
A policial suspeita de efetuar o disparo não foi detida. Ela teve sua arma recolhida, segundo a Secretaria de Segurança Pública. A soldado foi afastada.
A soldado Yasmin é alvo de um Inquérito Policial Militar e de investigação do DHPP (Departamento de Homicídios e Proteção a Pessoa). O MPSP (Ministério Público de São Paulo) abriu investigação para apurar as circunstâncias da morte. A morte de Thawanna será investigada pelo Gaesp (Grupo de Atuação Especial de Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial).
As investigações prosseguem com acompanhamento das corregedorias das polícias Civil e Militar, com análise das imagens das câmeras corporais e dos laudos periciais.
Thawanna Salmázio tinha 31 anos e deixou cinco filhos. Ela estava casada com Luciano Santos há três anos. Um culto em homenagem a Thawanna será realizado na próxima quarta-feira, na Igreja Firmados na Rocha Eterna, na zona leste. Nessa data, ela completaria 32 anos.
Luciano Santos nega a versão apresentada pelos policiais de que sua esposa teria agredido a agente. Ele afirmou que não reagiu durante a abordagem, mas questionou ter sido atingido pela viatura. O marido disse que mostrou que não estava armado na tentativa de socorrer a mulher, que já havia sido baleada.
Durante o episódio, após o disparo, houve grande movimentação na vizinhança, com gritos e orientações de moradores para acionar uma ambulância. Um homem, que parece não estar envolvido na discussão, alertou para a gravação do episódio: “nós tá vendo,viu. Tem câmera, viu?”.
A soldado Yasmin Cursino Ferreira tem pouco mais de um ano de Polícia Militar. Os policiais militares envolvidos no caso não foram identificados publicamente.
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