PM foi segurada por trás e baleada, diz laudo que levou à prisão de tenente-coronel

Perícia identificou que o agressor teria segurado a vítima com a mão esquerda pelo rosto e que a arma foi direcionada contra a têmpora direita

Por Redação TMC | Atualizado em
Tenente-coronel acusado de matar esposa PM é conduzido à prisão
Momento em que o tenente-coronel foi preso por feminicídio (Foto: Arquivo pessoal)

Laudos periciais concluíram que a policial militar Gisele Alves foi imobilizada antes de ser atingida por um disparo. A perícia identificou que o agressor teria segurado a vítima com a mão esquerda pelo rosto. A arma direcionada contra a têmpora direita dela era uma pistola Glock calibre 40 pertencente ao tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto. O documento foi essencial para descartar o suicídio e levar ao pedido de prisão do oficial investigado, que era casado com a vítima.

O laudo necroscópico registrou marcas de dedos na mandíbula e marca de unha no pescoço da PM. A investigação registrou que “o mosaico probatório indica que Gisele foi abordada por trás. O laudo necroscópico registrou ‘estigmas digitais’ (marcas de dedos) na mandíbula e ‘estigma ungueal’ (marca de unha) no pescoço, sugerindo que ela foi imobilizada com força. Foram encontradas ainda lesões.”

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O projétil seguiu trajetória ascendente, da direita para a esquerda. O laudo de reprodução simulada descartou a possibilidade técnica de suicídio. “A reprodução simulada indicou que o tiro teria sido realizado pelas costas, possivelmente de forma súbita e inesperada, o que teria inviabilizado qualquer chance de defesa por parte da vítima”, diz o documento.

Padrões de sangue foram localizados no ambiente em altura entre 1,70 metro e 1,80 metro. A análise considerou esses padrões incompatíveis com a tese de suicídio seguido de queda.

O laudo toxicológico mostrou que não houve consumo de drogas ou bebidas alcoólicas pela vítima. A investigação não detalha o horário exato em que o disparo foi efetuado. Também não especifica quantas ligações o investigado fez antes de acionar o socorro.

Investigação aponta manipulação da cena do crime

Perícias indicaram que o corpo foi movimentado. A arma foi colocada na mão da vítima após o disparo. Manchas de sangue foram espalhadas por outros cômodos do apartamento.

A perícia apontou sobre a manipulação da cena: “No dia do delito, antes do acionamento efetivo do 190 às 07h57min17s, o investigado realizou sucessivas ligações a terceiros e, apenas depois, consolidou o chamado às equipes estatais.” Tal sequência evidencia o retardamento não explicado do socorro imediato e priorização de contatos particulares, circunstância relevante para a compreensão de possível manipulação da narrativa e do cenário dos fatos.

A reconstrução do ambiente revelou inconsistências na versão apresentada pelo investigado. “Ainda, a reconstrução tridimensional do ambiente concluiu que, da porta do banheiro, não era possível visualizar o corpo na posição registrada nas fotos de chegada dos socorristas, com ou sem a árvore de Natal na sala, contrariando a narrativa do investigado.”

“Em manifestação desta terça, os promotores Giovana Ortolano Guerreiro, Marcel Del Bianco Cestaro e Vanessa Damasceno consideraram a presença de requisitos legais e fundamentos fáticos amparando o requerimento de prisão feito pela Polícia Judiciária Militar.”

Mensagens revelam histórico de violência e controle

Mensagens extraídas do celular do investigado revelaram ofensas, humilhações, controle e ameaça de subjugação. “As mensagens extraídas do celular do investigado revelaram ofensas, humilhações, controle e ameaça de subjugação, inclusive episódio de agressão física (“enfiado a mão”) dias antes dos fatos aqui analisados (05/02/2026)”, consta em trecho da investigação citado em decisão da Justiça Militar.

A mãe da vítima informou à polícia que o relacionamento da filha com Geraldo era “extremamente conturbado”. Ela afirmou que o tenente-coronel era uma pessoa abusiva e muito violenta. O militar proibia a vítima de usar batom, salto alto e perfume. Cobrava rigorosamente para realizar várias tarefas domésticas.

Colegas de trabalho da vítima descreveram o tenente-coronel como “ciumento, controlador e invasivo”. O inquérito cita visitas ao local de trabalho da esposa, mesmo sem atribuição para tal, com base em sua “ascendência hierárquica”.

Cronologia dos fatos

O caso ocorreu em 18 de fevereiro. O acionamento ao número de emergência 190 foi registrado às 7h57min17s. A morte de Gisele foi constatada às 12h04 do mesmo dia no Hospital das Clínicas.

O caso foi registrado inicialmente como suicídio consumado. O registro foi alterado pela Polícia Civil para “morte suspeita” a partir do depoimento da mãe da vítima.

Versão do investigado

Geraldo afirmou que, no dia dos fatos, se dirigiu ao quarto de Gisele por volta das 7h para dizer que queria a separação. O homem afirmou ter dito que ainda a amava. Entendia ser melhor terminar porque o relacionamento não estava funcionando.

A esposa se levantou de forma “exaltada”, mandou ele sair do quarto e bateu a porta. Ele alega ter pegado a toalha para tomar banho em seguida.

O tenente-coronel declarou ter ouvido um barulho, um minuto após entrar no banho. Pensava ser uma porta batendo. Ao abrir a porta, se deparou com Gisele no chão, ferida na cabeça e segurando a arma de fogo. Ele disse ter acionado o resgate, a Polícia Militar e ter ligado para um amigo que é desembargador.

O advogado Eugênio Malavasi, defensor do tenente-coronel, diz que não há fundamentação para a decretação da prisão do cliente. Ele ressaltou que Geraldo está em licença-prêmio, afastado das funções.

Leia mais: 5 elementos que levantaram suspeitas na morte de PM e levaram à prisão de tenente-coronel

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