Advogado apresenta mensagens em que PM morta relatava ciúmes do marido coronel

Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi encontrada morta com tiro na cabeça em apartamento no Brás em 18 de fevereiro; defesa da família sustenta relacionamento abusivo

Por Redação TMC | Atualizado em
(Foto: Arquivo Pessoal)

O advogado José Miguel da Silva Júnior, que representa a família da soldada Gisele Alves Santana, apresentou nesta segunda-feira (16/03) mensagens e áudios nos quais a policial relatava ciúmes do marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto. Gisele, de 32 anos, foi encontrada morta com um tiro na cabeça no dia 18 de fevereiro. O corpo estava no apartamento onde ela morava com o oficial, de 53 anos, no Brás, região central de São Paulo.

Nas mensagens, a soldada escreveu: “Tem que controlar os ciúmes dele. Qualquer hora me mata. Fica cego. Não tenho como controlar o que falam, muito menos o que acham […]”.

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A defesa da família sustenta que os registros demonstram que Gisele vivia em um relacionamento abusivo. A soldada deixou uma filha.

Investigação reclassificada para morte suspeita

O caso foi inicialmente registrado como suicídio. A Polícia Civil passou a investigar o episódio como morte suspeita. A Justiça determinou a redistribuição para a Vara do Júri por entender que há indícios de crime doloso contra a vida, categoria que inclui feminicídio.

A mãe de Gisele prestou depoimento na delegacia. Ela declarou que a filha mantinha um relacionamento conturbado com o tenente-coronel. Segundo o relato, o oficial tinha comportamento abusivo e violento, impondo restrições ao comportamento da soldada. Gisele era impedida de usar batom, salto alto e perfume. A policial também era cobrada pelo cumprimento rigoroso de tarefas domésticas.

Quando a soldada manifestou a intenção de se separar, o tenente-coronel teria enviado pelo celular uma fotografia em que aparecia com uma arma apontada para a própria cabeça, conforme o relato da mãe.

Áudio mostra pedido de moradia ao pai

O advogado Miguel Silva apresentou um áudio enviado por Gisele ao pai no ano passado. “Recebi um áudio onde Gisele, no ano passado, pede para o pai arrumar uma casa para ela. O desespero era tanto”, declarou o defensor.

Na gravação, a soldada diz: “Não, pai, pra mim é melhor aí, rua, entendeu? Quanto mais perto daí, melhor.” De manhã eu vou sair muito cedo pra ir trabalhar e aí eu vou ter que deixar a [nome da criança] dormindo aí, entendeu?”.

Em outro trecho, ela complementa: “Então, quanto mais perto, melhor. Porque eu já deixo ela aí e já pego o trem pra ir trabalhar, entendeu? Pra não ficar tendo essa viagem aí de manhã. Eu perco muito tempo. Eu entro cedo aqui no serviço”.

A família de Gisele, incluindo a mãe e o pai, prestou depoimentos no 8º Distrito Policial, no Brás, onde o caso está sendo investigado.

Registros policiais contra o oficial entre 2009 e 2022

O advogado Miguel Silva apresentou boletins de ocorrência feitos por uma ex-companheira do tenente-coronel entre 2009 e 2010. O defensor classificou o histórico do oficial como “ameaçador” e “perseguidor”.

“Tem um boletim de ocorrência de 2010 em que uma vítima, sua ex-mulher, diz que vem sofrendo vários problemas de perturbação de sua tranquilidade. A ex-mulher se socorre de medida protetiva e diz o seguinte: ‘o autor mantém vigilância sobre a vítima, impedindo que ela se relacione com outras pessoas, ameaçando inclusive de morte’“, afirmou o advogado.

O defensor também citou outro registro policial. “Foi lavrado um BOPM em 22 de janeiro de 2022 em que outra vítima se queixa. O assunto é ameaça. ‘Está entrando dentro do meu apartamento o senhor major'”, disse Silva.

A defesa da família sustenta que os episódios revelam um padrão de comportamento do policial. “É um histórico ameaçador, um histórico perseguidor”, disse o advogado.

Processo judicial relata perseguição a policiais mulheres

O advogado mencionou um processo judicial relacionado a um episódio ocorrido em 8 de julho de 2022. Na época, o oficial tinha a patente de major. Segundo o documento judicial apresentado, houve perseguição contra policiais militares mulheres subordinadas ao oficial.

“Em 8 de julho de 2022, o servidor major Neto decidiu movimentar quatro policiais femininas para outro local de trabalho como forma de punição, sem apresentar motivos legais para a transferência. Passando a perseguir o efeito feminino, incluindo a requerente”, declarou o advogado, citando o processo.

Conforme o documento, “A requerente passou a ser totalmente hostilizada pelo servidor major Neto”. Outras policiais também teriam relatado problemas semelhantes à Corregedoria da PM, segundo Silva.

O advogado José Miguel da Silva Júnior criticou o comando da Polícia Militar e o secretário da Segurança por não terem afastado o oficial de suas funções anteriormente.

“Quando eu disse que o tenente-coronel é um violador, um assediador, já há muito tempo, eu fiz uma crítica ao comando da Polícia Militar e ao secretário da Segurança. Eu mantenho essa crítica, haja vista que ele deveria ter sido afastado já há muito tempo das suas funções”, afirmou o advogado.

Laudos apontam lesões e ausência de pólvora nas mãos

A Polícia Técnico-Científica já finalizou três laudos. O laudo necroscópico apontou como causa da morte o traumatismo decorrente de disparo encostado do lado direito da cabeça. O exame também identificou lesões no rosto e pescoço da vítima, compatíveis com pressão digital e marcas de unhas. Essas lesões foram confirmadas tanto no primeiro exame quanto na exumação.

O laudo residuográfico não detectou pólvora nas mãos do coronel nem nas mãos de Gisele. O laudo da trajetória do tiro indicou que o disparo foi de baixo para cima.

Peritos informaram que encontraram marcas de sangue no banheiro do apartamento. Gisele foi encontrada morta em outro cômodo da residência.

Dois laudos ainda não foram anexados ao inquérito. O laudo toxicológico determinará se Gisele consumiu alguma substância. O laudo do local da morte, com registros fotográficos da posição do corpo, também está pendente.

A reconstituição do caso foi realizada em 23 de fevereiro por peritos do Instituto de Criminalística no apartamento do Brás onde o casal morava.

Ex-marido afirma que soldada nunca pensou em suicídio

O ex-marido de Gisele Alves Santana compareceu ao distrito policial na sexta-feira (13) para prestar depoimento. Segundo o advogado José Miguel, que representa a família da soldada e acompanhou o ex-marido, ele afirmou que a soldada “nunca pensou em cometer suicídio”.

De acordo com Miguel, a filha que o ex-marido teve com Gisele, e que morava com ela, deverá ficar sob a guarda dele agora. O ex-marido também comentou no depoimento que Geraldo não gostava da criança.

Versão do coronel aponta suicídio após discussão

O coronel Geraldo Neto deu a versão à Polícia Civil de que a esposa se suicidou. Foi ele quem telefonou para a PM pedindo ajuda. Segundo o oficial, após uma discussão, ele disse que pediu a separação e foi tomar banho. Um minuto depois, Gisele teria pegado a arma dele e disparado contra a própria cabeça, pelo lado direito. Isso teria ocorrido sem ele ver.

A família da soldada contestou a hipótese de suicídio, apresentou relatos de que Gisele vivia uma relação tóxica com o coronel e pressionou por uma reavaliação do caso.

Câmeras de segurança do prédio registraram a chegada de policiais ao local. As imagens também mostram um encontro entre o coronel e um desembargador, amigo do oficial, que compareceu ao apartamento após ser contatado por telefone. As imagens mostram que, após a conversa com o desembargador, o tenente-coronel tomou banho.

Geraldo disse que tinha ido tomar banho, mas estava com o corpo seco quando as autoridades chegaram até o apartamento. Agentes que atenderam a ocorrência estranharam o fato de que a arma que matou Gisele estava ainda na mão dela, algo incomum em casos de suicídio.

O corpo da soldada foi exumado por determinação judicial para a realização de novos exames periciais. A medida foi tomada devido às dúvidas persistentes sobre as circunstâncias da morte.

Defesa do coronel mantém tese de suicídio

O advogado Eugênio Malavasi, que defende o tenente-coronel Geraldo Neto, declarou no sábado (14): “A defesa do tenente-coronel aguarda serenamente o desenrolar da apuração da Polícia Civil com a juntada de todos os laudos e externa a confiança na palavra do coronel: de que trata-se de suicídio”. Malavasi acrescentou: “E isso será comprovado de foram cristalina ao final da investigação”.

O coronel se afastou do trabalho na corporação após a morte de Gisele. Segundo a defesa dele, o oficial fez questão de participar da reconstituição do caso.

Um médico do esporte que atendeu o casal dias antes de Gisele morrer será indicado pela defesa do coronel para ser ouvido como testemunha. Ele irá relatar que Geraldo e a esposa foram ao seu consultório com um objetivo em comum de ter uma vida mais saudável juntos.

O escritório de advocacia que defende o coronel solicitou que ele preste um novo depoimento após a conclusão dos exames periciais restantes, incluindo o complementar do laudo necroscópico do Instituto Médico Legal.

Família pede prisão preventiva do oficial

O advogado da família afirmou: “Eu não tenho dúvidas que ele [coronel Geraldo] matou ela [Gisele]. Mas cabe a polícia provar”.

A família e o advogado avaliam que a delegacia já possui elementos para solicitar a prisão preventiva do coronel. “Existem requisitos para a prisão. Há várias testemunhas que têm pavor dele, houve alteração da cena da morte, o que já é suficiente para pedir a preventiva”, afirmou o advogado.

A Polícia Militar instaurou um Inquérito Policial Militar após receber denúncias anônimas. Os relatos indicam que o casal vivia uma relação marcada por ameaças, perseguição e instabilidade emocional atribuídas ao tenente-coronel.

A delegacia que investiga a morte ainda aguarda os resultados de laudos complementares da Polícia Técnico-Científica para concluir o inquérito e determinar se houve suicídio ou crime. A hipótese de que Gisele se matou não foi descartada totalmente, mas também está sendo apurada a possibilidade de feminicídio.

As investigações da Polícia Civil e da Polícia Militar continuam em andamento.

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