A pesquisa inédita do Barômetro da Lusofonia identificou que saúde, educação e desemprego representam os maiores problemas enfrentados pelos cidadãos dos países que falam português. O estudo foi pelo Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), após entrevistar mais de cinco mil pessoas em oito nações distribuídas por quatro continentes.
O cientista político e coordenador do levantamento Antonio Lavareda participou do TMC 360 nesta sexta-feira (30/01) e detalhou como foi feito o estudo.
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“O Barômetro da Lusofonia procura compreender como vivem, como pensam e como avaliam seu mundo os países dessa comunidade lusófona, que expressam profundas diferenças, ou seja, há grandes heterogeneidades entre elas, mas também há alguma homogeneidades tanto na percepção dos problemas quanto a principal que é a estrada comum que é a lusofonia são falantes de língua portuguesa”, explicou.
O levantamento mapeou valores, opiniões e expectativas sobre diversos temas como democracia, desigualdade de gênero, imigração e notícias falsas nos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A iniciativa surgiu para compreender melhor as realidades compartilhadas e as diferenças entre essas nações.
“Nós pensamos e incluímos nessa edição desde percepções sobre a vida pessoal, percepções sobre a vida do país, expectativa para os próximos tempos, do ponto de vista do desenvolvimento socioeconômico de cada país, abordamos temas sensíveis como o legado e a herança escravocrata, abordamos a questão da migração e questão de desigualdade de gênero, diversidade sexual e temas universais”, detalhou.
Lavareda ainda destacou que o estudo mostra como funciona a “troca cultural” entre os países, inclusive na questão do futebol. “Isso nos dá uma mosaico muito amplo”.
Variações regionais nas preocupações
No Brasil, o estudo aponta que saúde (45%), violência (40%) e educação (35%) aparecem como as principais preocupações da população. A questão da segurança ganhou maior relevância no debate público brasileiro após operação policial contra facções criminosas nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, realizada em outubro de 2025.
A pesquisa abrangeu Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, com coleta de dados simultânea nesses países localizados na África, América do Sul, Ásia e Europa.
Insatisfação com a democracia
O estudo revela que 57% dos entrevistados nos países lusófonos não estão satisfeitos com o regime democrático em seus países. Timor-Leste e Portugal apresentam um cenário diferente, com índices de satisfação de 75% e 61%, respectivamente, sendo os únicos onde a maioria da população se diz satisfeita.
Quanto à participação eleitoral, 63% dos entrevistados afirmam votar sempre e 13% dizem votar na maioria das vezes. O Brasil, único país da CPLP com voto obrigatório, apresenta o maior nível de participação declarada: 88% afirmam votar sempre e 5% votam na maioria das vezes.
Disseminação de notícias falsas
O Barometro também investigou a disseminação de fake news entre os países lusófonos. Em média, 64% dos entrevistados afirmam já ter recebido notícias falsas. Portugal (83%) e Brasil (80%) lideram esse ranking, seguidos por Angola e Moçambique (ambos com 71%) e Guiné-Bissau (67%).
Cabo Verde e São Tomé e Príncipe apresentam percentuais menores (49% cada), assim como Timor-Leste (40%). Os índices mais baixos de identificação de fake news em alguns países podem refletir maior dificuldade de reconhecimento do problema em determinados contextos regionais.
Importância estratégica do português
O estudo destaca a relevância do idioma português, falado por aproximadamente 300 milhões de pessoas em todo o mundo. A língua portuguesa é considerada uma das com maior número de falantes nativos globalmente, com projeções indicando que esse número pode ultrapassar 500 milhões até 2100.
Os dados coletados resultaram na publicação de um livro, disponível em formato impresso e digital. O projeto inclui a realização de um ciclo de seminários no Brasil e em outros países de língua portuguesa.
Todo o banco de dados produzido pela pesquisa está sendo compartilhado com centenas de instituições acadêmicas por intermédio da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP). Essa iniciativa permitirá que estudantes, docentes e pesquisadores utilizem as informações para o desenvolvimento de trabalhos acadêmicos.
O projeto conta com apoio da própria CPLP, da AULP, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, do Ministério da Cultura do Brasil, além de universidades brasileiras e estrangeiras, fundações e centros de pesquisa.
