Durante décadas, o dólar americano ocupou uma posição quase incontestável como principal moeda de reserva, meio de troca internacional e referência de valor no comércio global. Essa hegemonia garantiu aos Estados Unidos vantagens únicas no financiamento de sua dívida, influência geopolítica e a capacidade de impor sanções financeiras com grande eficácia. No entanto, sinais recentes indicam que esse arranjo começa a ser questionado de forma cada vez mais concreta. O que antes era tratado como discurso político ou retórico diplomático passa a se materializar em decisões práticas de política econômica e financeira. Nesse contexto, o Brasil emerge como um ator mais relevante do que normalmente se reconhece.
Esse movimento se insere em uma tendência mais ampla de diversificação das reservas internacionais. Dados do Fundo Monetário Internacional mostram que a participação do dólar nas reservas cambiais globais caiu para cerca de 56,9 por cento em 2025, nível significativamente inferior ao observado no início dos anos 2000, quando superava 70 por cento. Embora o dólar ainda seja a principal moeda de reserva do mundo, sua trajetória revela uma perda gradual de espaço, acompanhada pelo aumento da participação de outras moedas e de ativos não monetários.
No caso brasileiro, essa diversificação se manifesta de forma clara na ampliação das reservas em ouro. Em poucos meses, o Banco Central adicionou dezenas de toneladas ao seu estoque, elevando o total para cerca de 172 toneladas. Trata-se de uma estratégia alinhada à de outros grandes países emergentes como China e Índia, que vêm aumentando suas posições em ouro como forma de proteção contra riscos cambiais, tensões geopolíticas e o uso político do sistema financeiro internacional. O ouro, por não estar associado à política econômica de um país específico, passa a funcionar como um ativo de neutralidade e segurança.
Ainda mais significativa do que a recomposição das reservas é a mudança em curso no comércio internacional. Brasil e China iniciaram a liquidação de parte do comércio de soja em moedas locais, dispensando o uso do dólar. Esse fato possui enorme peso simbólico e prático. O Brasil é o maior exportador mundial de soja e a China responde por cerca de 60 a 66 por cento das importações globais do produto. Quando dois atores dessa magnitude passam a negociar fora do dólar, o impacto transcende o setor agrícola e sinaliza uma transformação estrutural no funcionamento do comércio global.
Essa mudança só é possível porque mecanismos alternativos já estão em funcionamento. Linhas de swap cambial, acordos bilaterais e sistemas de pagamento fora do circuito tradicional dominado pelos Estados Unidos vêm sendo construídos há anos.
A consequência desse processo é uma pressão gradual, porém persistente, sobre a demanda global por dólares. Quanto menos comércio internacional é liquidado na moeda americana, menor é a necessidade de os países manterem grandes volumes de reservas denominadas em dólar. No médio e longo prazo, isso pode contribuir para a desvalorização da moeda, para o aumento do custo de financiamento da dívida pública dos Estados Unidos e para a redução de sua capacidade de exercer poder geopolítico por meio de instrumentos financeiros.
É importante destacar que esse movimento não implica o colapso iminente do dólar. A moeda continua dominante nos mercados cambiais e financeiros, como mostram dados do Banco de Compensações Internacionais, segundo os quais o dólar ainda participa da maioria das transações globais de câmbio. No entanto, a tendência aponta para um sistema paulatinamente mais diversificado.
As advertências recorrentes de lideranças políticas norte americanas contra iniciativas de desdolarização parecem ter efeito limitado. Em muitos casos, elas reforçam a percepção de risco político associada à dependência excessiva de uma única moeda. Sob essa ótica, as decisões do Brasil não devem ser interpretadas como um gesto ideológico ou de confronto, mas como uma estratégia pragmática de diversificação de risco em um momento de incerteza e de um mundo em transformação.
