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Eduardo Mendes
Eduardo Mendes
Eduardo Mendes lidera a conexão entre creator economy, inovação comercial e novos formatos de mídia na TMC. Com uma década de experiência em jornalismo e estratégia de conteúdo para esportes e entretenimento, ele analisa as transformações no mercado, com foco em direitos, distribuição, IP e a economia liderada por criadores.

A diferença entre alavancar audiência e construir um ativo

A entrada do The Chernin Group na Goalhanger e o novo hub de esportes com KondZilla e GR6 revelam por que o capital institucional investe em IP consolidado, e não apenas em atenção social

Os valores dos acordos fechados pela Netflix nos últimos meses para levar podcasters ao streaming giram entre US$ 5 milhões e US$ 10 milhões, segundo apuração da Bloomberg de janeiro. O número foi destrinchado pelo The Entertainment Strategy Guy, e sua conclusão é: a Netflix pode estar conseguindo o equivalente a uma série de TV por uma fração do preço.

Como bem destacou o insider, a maioria das empresas de podcast já produz vídeos para o YouTube, com infraestrutura, equipe e formatos testados. A Netflix está apenas migrando os feeds para seu domínio.

Entre os adquiridos está The Rest Is Football, podcast apresentado por Gary Lineker e anunciado em dezembro como parte da estratégia da Netflix para a Copa do Mundo de 2026. O programa pertence à Goalhanger, empresa que no fim de janeiro recebeu um investimento minoritário do Grupo Chernin. Os valores não foram divulgados, mas o acordo dá à TCG um assento no conselho.

É o primeiro aporte externo da Goalhanger em mais de uma década. Segundo a empresa, a parceria vai permitir expandir suas séries para televisão, cinema, vídeo digital, formatos escritos e experiências ao vivo. A notícia veio semanas depois da aquisição da The Overlap, concorrente direta, pela gigante britânica de áudio Global Media Group.

Na época, escrevi sobre o movimento, explicando por que a aquisição do The Overlap reflete uma transformação mais ampla que envolve a desagregação dos direitos e a ascensão dos criadores como aceleradores de valor.

Mas fiz uma ressalva importante: isso não significa que qualquer IP de criador seja investível. O negócio faz sentido para a Global porque o Overlap já reúne escala, formatos validades e expansão para além do futebol, incluindo rugby e críquete.

É o protótipo de IP relevante que combina alcance multiplataforma e comunidade dentro de um ecossistemas de outros ativos.

A Goalhanger reúne 14 programas, múltiplos apresentadores e mais de 250 mil membros pagantes. Em 2025, superou 750 milhões de visualizações e plays.

O ponto relevante não é a entrada do podcast na Netflix, mas o estágio do ativo no momento da transação. O capital institucional não foi direcionado a um criador isolado, e sim a uma estrutura de mídia com IP consolidado.

Por aqui, durante o Carnaval, a S4 anunciou parceria com KondZilla e GR6 para desenvolver um hub de conteúdo com o pano de fundo da Copa de 2026. A proposta combina creators, marcas e produção social-first.

A joint venture entre Sisu Ventures e Disruptive Play posiciona-se como uma propriedade intelectual focada na junção entre esportes e economia dos criadores.

Projetos ancorados em calendário esportivo partem de outra lógica econômica. A variável central deixa de ser a frequência recorrente para priorizar a intensidade de atenção concentrada em janelas específicas. O desafio é o que sobra depois que o torneio acaba.

Em 2022, também ano de Copa, a Paramount+ lançou “Funkbol”, série documental sobre as duas paixões nacionais, produzida pelo VIS em parceria com KondZilla e Adventures Studios.

Na época, a Adventures e sua vertical de esportes tentaram, sem sucesso, criar IPs próprios. Na lista, parcerias com a Religion Of Sports e o lançamento da OTS, uma marca de conteúdo nas redes. Todas desapareceram entre 2021 e 2023 sem o mesmo alarde com o qual divulgaram as iniciativas e desdobramentos societários e de negócios relevantes.

Em meio a um hiato, a marca Funkbol ressurgiu em julho de 2025 no YouTube, impulsionada pela entrada do time homônimo na Kings League. Hoje, o canal tem 4,7 mil inscritos e 66 vídeos postados cuja média de views nã ultrapassa 10 mil. O perfil do Funkbol Clube no Instagram soma 193 mil seguidores.

O anúncio da nova empreitada fez questão de destacar os 68 milhões de inscritos do canal KondZilla e os outros 42 milhões da GR6.

Seguidores e inscritos não são necessariamente base proprietária.

No fim do ano passado, o The Entertainment Strategy Guy publicou um ensaio oportuno sobre essa distorção recorrente: métricas sociais infladas que raramente se traduzem fora das plataformas que as hospedam.

O caso citado foi o do Dude Perfect. Com 60 milhões de inscritos no YouTube, o grupo lançou um filme que arrecadou cerca de US$ 450 mil nos cinemas. Aproximadamente 0,33% dessa base compareceu.

Leia mais: O retorno de longo prazo e as avaliações na economia do criador

Como bem alertou o analista, em algum momento, alguém precisará descobrir essa gigantesca desconexão entre as estatísticas das redes sociais e a incapacidade de se traduzir em qualquer outra mídia. 

Ao analisar os desdobramentos da Goalhanger em janeiro, mostrei que talento converte atenção em valor corporativo quando o IP se torna ativo. Na época, citei os casos de Sidemen e MrBeast para mostrar que o valor real está em escalar formatos, produtos, dados e parcerias, e não apenas audiência.

Chris Erwin escreveu recentemente que a era do dinheiro fácil acabou. Investidores não apostam mais somente em hype ou alcance ( abordarei mais este tema nos próximos dias).

O novo case brasileiro precisa ser lido com esse filtro. O hub anunciado nasce associado a um evento. Pode gerar relevância e patrocínio. A variável ainda em aberto é outra: essa audiência será capturada como ativo próprio ou permanecerá dependente das plataformas que a distribuem?