A compreensão da democracia como um regime centrado na competição por votos é um ponto recorrente na reflexão acadêmica. Segundo a formulação de Joseph Schumpeter, economista e cientista político do século XX, o que define a democracia é o procedimento que permite identificar quem manda por meio da eleição. A democracia, nessa perspectiva, não se fundamenta em hereditariedade nem em designações divinas, mas na decisão da população que vota mais em um candidato do que em outro. Quem vence essa competição assume o poder.
Essa definição, muitas vezes chamada de minimalista por sua simplicidade, sustenta que a essência democrática está no processo. Outros elementos — liberdade, igualdade, melhoria de condições sociais — são relevantes, mas não constituem o núcleo do conceito. A vitória eleitoral, portanto, define quem governa.
A partir dessa lógica, surge um conjunto de consequências. Entre elas, a pressão inerente ao processo competitivo. Um candidato que deseja vencer precisa estar atento aos riscos de conflito de interesses: espera-se que seja virtuoso e honesto, mas, ao mesmo tempo, precisa priorizar estratégias que aumentem suas chances de vitória. A demanda por desempenho eleitoral recai sobre políticos profissionais, que se dedicam a ganhar eleições. Para o eleitor comum, esse funcionamento nem sempre é claro: o que está em jogo é conquistar votos, e praticamente todo esforço se organiza em torno disso.
Daí emerge outra implicação: o critério central para o sucesso de um político não é apenas sua capacidade administrativa ou competência como governante, mas sua habilidade de campanha. Ser “bom de urna”, como se diz no Brasil, torna-se decisivo. Embora exista a expectativa de que os eleitos realizem um bom governo e cumpram promessas, a entrada no jogo político depende fundamentalmente da capacidade de vencer a disputa eleitoral.
Essa lógica da performance aparece também fora da política. No campo do neuromarketing, destaca-se que a captação de atenção das pessoas não depende apenas da racionalidade, mas de técnicas específicas voltadas a atrair e manter o interesse do público. A pressão para performar se espalha pela sociedade, marcada pela necessidade de apresentar resultados, transmitir uma imagem de sucesso, de bem-estar e de capacidade de dar conta das demandas cotidianas. Essa exigência atravessa relações pessoais, profissionais e acadêmicas.
Esse ambiente alimenta ansiedade e reforça o papel do marketing — especialmente o digital — como elemento estruturante das relações sociais. A necessidade de “vender-se” se estende às diversas esferas da vida, e o uso de referências provenientes das neurociências contribui para organizar essa pressão sobre as pessoas.
No cenário brasileiro recente, a ideia de que quem vence a competição por votos manda também se expressa nas disputas entre os poderes da República. A relação entre Legislativo, Executivo e Judiciário evidencia como a competição se reproduz entre representantes eleitos. O caso da indicação de um nome ao Supremo Tribunal Federal ilustra essa dinâmica: o Senado, ao deliberar sobre aprovar ou rejeitar o indicado pelo Executivo, age de acordo com sua própria competição interna por votos.
Se o presidente do Senado mobiliza apoio suficiente para barrar a indicação, esse resultado decorre da mesma lógica competitiva. Embora não reflita diretamente a vontade dos eleitores, opera dentro das regras do sistema representativo, no qual senadores foram eleitos por serem bons de urna e atuam segundo cálculos próprios. Por trás dessas movimentações estão interesses ligados a verbas, emendas e negociações políticas. Trata-se do funcionamento efetivo da política, distinto das expectativas sobre como ela deveria ser.
