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Joana Treptow
Joana Treptow
Destaque pelo estilo espontâneo na apresentação jornalística, Joana Treptow teve passagem pela TV Bandeirantes, onde começou a atuar como repórter de TV e, em seguida, passou a integrar o elenco de âncoras do veículo, além de produzir reportagens especiais.

A minha geração cresceu acreditando em um mundo – ele não existe mais?

Países hoje se fecham, fronteiras voltam a ser erguidas e discursos nacionalistas viram estratégia política em sociedades que convivem com sensação de perda de controle

O mundo como a gente conhecia deixou de existir? A pergunta não é retórica e nem nostálgica. Ela me veio à cabeça nos últimos dias, acompanhando uma sucessão de acontecimentos internacionais que, isoladamente, parecem episódicos, mas juntos reforçam a sensação de que as referências que organizavam a realidade – política, social e até pessoal – estão se desfazendo ao mesmo tempo.

Nossos pais cansaram nossos ouvidos repetindo que “no meu tempo era diferente”. E agora, na nossa vez de chegar à idade adulta, a constatação é a mesma: no nosso tempo também era diferente. Tudo muda tão rápido que o mundo que crescemos imaginando que iríamos encontrar no futuro simplesmente já não existe mais.

Começando pelo macro. Desde que me entendo por gente, aprendi na escola que a globalização era o único caminho possível. Integração econômica, fortalecimento de organismos multilaterais e cooperação entre países eram apresentados como sinônimo de progresso. O mundo não teria fronteiras, seria mais conectado, mais racional e, portanto, mais estável. Seria.

Hoje, países se fecham e fronteiras voltam a ser erguidas. Discursos nacionalistas viraram estratégia política em sociedades que convivem com uma sensação de perda de controle. A liberdade, antes tida como a expansão das possibilidades, passou a ser percebida por muitos como excesso ou ameaça. E, nesse ambiente, a ideia de proteção volta a seduzir.

Essa aversão à liberdade sem freio não ficou restrita às relações entre os Estados. Ela contaminou o cotidiano. Como se o único antídoto para o excesso fosse o fechamento. Diante da sensação de desordem, muita gente passou a reagir não com mais diálogo, mas com menos abertura ao diferente, ao novo, ao discordante.

Durante muito tempo, acreditou-se que mais liberdade produziria mais entendimento. Que um mundo sem muros, sem fronteiras e sem conflitos não só era possível como seria o caminho natural de uma nova geração – a minha. Havia quase um consenso de que, no futuro, guerras pertenceriam aos livros de história, com exceção de conflitos distantes, complexos e prolongados demais para engajar o mundo ocidental e defini-los como “guerra de verdade”.

Afinal, como conflitos armados poderiam coexistir com uma sociedade mais informada, conectada e consciente?

Em “Imagine”, John Lennon resumiu esse espírito. A ideia de que, juntas, unidas pelo mesmo propósito, as pessoas tenderiam à convivência. Décadas depois, a música continua atual justamente porque ainda está no campo do imaginário.

A internet, que derrubaria muros e distâncias, acelerou esse desencontro. A falta de consenso, as ideias contrárias, que deveriam ser parte da convivência, se tornaram parte da liberdade ameaçadora. O espaço para a divergência, em si, se tornou campo de batalha. Não só continuamos convivendo com guerras. Precisamos lidar com outros conflitos.

Assim, o outro não desaparece… mas deixa de ser alguém com quem se debate. Passa a ser alguém a ser evitado, silenciado ou bloqueado. Internalizamos, quase sem perceber, aquela premissa incômoda que parecia restrita aos livros de história: a dificuldade de lidar com o conflito. Antes entre Estados, agora entre nós.

Talvez o mundo como a gente conhecia não tenha acabado e nem vá acabar. Talvez ele esteja se diluindo aos poucos, enquanto tentamos administrar um excesso de liberdade sem mediação, instituições enfraquecidas e relações cada vez menos dispostas ao dissenso.

A minha geração cresceu acreditando em um mundo mais aberto, mais integrado e mais racional. O problema é que esse mundo não chegou a se consolidar – e o que surgiu no lugar ainda não tem contornos claros.

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