Enquanto o Brasil dormia na noite de sexta (21) para sábado (22), Alexandre de Moraes escrevia a decisão que faria o país acordar em sobressalto. Surpresos ficamos nós, que não sabíamos o que estava acontecendo. Já Bolsonaro, prestes a ser preso, não foi pego de surpresa. Pelo menos é o que diz a Polícia Federal sobre o momento em que chegou à casa do ex-presidente: não houve qualquer reação à prisão.
Enquanto as pessoas tentavam entender o que justificava esse agravamento da medida, Bolsonaro sabia exatamente o que significava a violação da tornozeleira eletrônica. Esse ponto, inclusive, pesou muito mais na decisão de Moraes do que o próprio ministro deixou evidente no despacho. No primeiro momento, a atenção ficou toda na vigia. Tanto que foi nisso que os apoiadores do ex-presidente se agarraram para questionar o mérito da prisão preventiva: perseguição.
As horas seguintes foram tão esclarecedoras que nem parecem um enredo brasileiro. Depois de criminalistas confirmarem a legalidade da prisão, a cronologia dos fatos se consolidou e, mais tarde, a própria confissão de Bolsonaro encerrou qualquer especulação. Informações de bastidores indicam que não só aliados políticos, mas até a própria defesa ficaram assustados com o vídeo divulgado.
Bolsonaro pediu para ser preso. Quem diz isso não sou eu, e sim o Código Penal. Não há margem para questionar Alexandre de Moraes sobre a interpretação. Qualquer advogado ou juiz entende que violar uma medida cautelar é assumir o risco de descumprimento da pena.
É aí que entram as supostas alucinações que Bolsonaro disse ter tido. Elas funcionam mais como uma justificativa interna, para consumo da própria base, do que como argumento capaz de alterar algo no processo. Quem não sabe como funciona uma tornozeleira somos nós. Bolsonaro conviveu tempo suficiente com o aparelho para conhecer seu funcionamento.
A desculpa não muda nada na forma como a Justiça encarou a violação. Pode servir de muleta para que a defesa siga usando a saúde, antes física e agora mental, como forma de tentar enquadrar o episódio em algo menos grave do que é. Mas, na prática, não muda absolutamente nada. A violação está registrada, admitida e sustentada por evidências que não dependem de intenção, memória ou estado emocional.
O fato é que a explicação de Bolsonaro não mira a Justiça. Mira o próprio grupo político, que precisava de um enredo rápido para sobreviver ao impacto das horas anteriores. A defesa pode insistir na linha da saúde, pode tentar reabrir a discussão ou trabalhar para diluir a percepção pública. Mas o processo anda em outra frequência. E nesta altura já não há espaço para reinterpretar o que foi feito.
O problema para Bolsonaro não está no que ele diz agora, mas no que já fez antes de tentar justificar. E é isso que vai continuar guiando tudo daqui para frente.
